terça-feira, janeiro 02, 2007

Crítica da crítica

1. Fico sempre amargurado quando valorizo positivamente um texto que, não me tendo comovido nada, se me afigurou, todavia, original.

2. Recentemente, o jornal PÚBLICO noticiou que a tradução da poesia de Herberto Helder para espanhol foi bem recebida pela crítica do país vizinho, em grande parte por causa deste poeta não ser absolutamente indecifrável, ou seja, por o seu hermetismo não ser excessivo (palavras minhas, que eu sou muito perífrase e ponto-acrescentado). Que tédio: com tantas coisas extraordinárias que se poderiam dizer sobre tão extraordinário autor, foi isto que o jornal quis assinalar.

3. Não há nada mais inútil do que um crítico de cinema que venha falar de argumentos bem carpinteirados, elencos de luxo, adequados meios de produção, rossios metidos em betesgas, pretensiosismos indecifráveis, ritmos suportáveis, e sei lá mais o quê. Para cada filme sobre o qual escreve (e só se deveria escrever sobre o que se ama), o crítico tem de inventar um discurso, um estilo, um tom, que traduzam a originalidade que esse filme provocou no seu pensamento. Se não houve faísca, agradece-se o silêncio (que há muito que ler, e muito papel a poupar).


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