domingo, janeiro 07, 2007

Crónica do guarda-chuva

Dizem as más línguas que o guarda-chuva é um dos poucos esperantos que não evoluiu. Assim como guarda o Homem da chuva, guarda-se a si mesmo da invenção. Afinal, se em equipa vencedora não se mexe, é melhor deixar chover no molhado do que fazer, por capricho, revolução. E a engenhoca é suficientemente ambígua para saber que a sua beleza é só um giro sobre si mesma.

Mas nada pode parar o ciclo da invenção. Ela existe perdida no passado, oculta no presente, nebulosa no futuro. Aliás, a preguiça da imaginação só morre à sede à beira da água, quando a água se faz rogada, quando exige vontade. Isso não acontece no fenómeno da chuva: a água cai para todos, e para matar a sede basta fechar o... guarda-chuva. O guarda-chuva evolui por negação.

Que maior invenção pode haver, portanto, do que usar um guarda-chuva quando faz sol? Se a isso se chama sombrinha, é só para que ninguém se esqueça de que o guarda-chuva a si mesmo se anulou para devir coisa diversa: na caverna de todas as alegorias, o fogo das ironias secou o arquétipo para que ele se tornasse ilusão. De qualquer modo, a essência é apenas uma forma de precipitação (que o digam os perfumes que formam as varetas dos sistemas de pensamento).

Um dia, quando a pintura estiver menos morta, surgirá um movimento estético que substituirá a tela tradicional pelo tecido do guarda-chuva. As ruas serão museus onde as exposições mudarão a cada segundo (curadas apenas pela ignorância do clima), onde os quadros se abrirão e fecharão, serão úteis e inúteis, mas estarão sempre ao preço da chuva. A Sotheby's será um mero clube de meteorologistas.

Também no cinema aparecerá um autor que filmará as suas histórias sempre em picado. As acções transformadoras das personagens surgirão todas do céu. Desgraças, coincidências, reviravoltas, surpresas, finais felizes: será tudo torto argumento escrito pelo divino Certo. Os actores abrirão ou fecharão a câmara sobre as suas cabeças conforme se queiram ou não proteger das narrativas que sobre eles caem. O cineasta limitar-se-á a aperfeiçoar o tecido (luz, nitidez, cor, geometria) esticado entre as varetas do enquadramento. E o sucesso do filme dependerá não do box-office, mas do efeito-Mary-Poppins sobre o espectador.

O guarda-chuva deixará de ser esperanto.


Sem comentários: