terça-feira, janeiro 23, 2007

Anotação: Ophüls

Confesso que o (por mim) tão aguardado encontro com o filme "Letter from an unkown woman", do período americano do realizador Max Ophüls, me deixou razoavelmente desiludido. É claramente um bom produto, e nele se pressente mesmo uma maturidade criativa quase a eclodir. Mas apenas quase.

Os temas de Ophüls já lá estão todos: a descrição minuciosa das vidas dedicadas aos prazeres mundanos, a contrastante santificação do amor absoluto, a tristeza da felicidade burguesa, etc.

O imaginário é também o mesmo: a vida fútil do fim do século XIX e do princípio do seguinte. Mas esse universo é apenas sinalizado no filme americano, é a circunstância que justifica (e decora) a narrativa sentimental. Nos quatro filmes finais da última fase francesa, Ophüls passa a assumir o prazer que esse imaginário lhe dá, escancarando-o com tanto gozo quanta irónica distanciação. É uma relação erótica entre o autor e o seu universo (como acontece em Fellini ou Paradjanov). E por isso, o tom meloso de "Letter from..." é substituído em "La ronde" por uma jouissance delicada mas que, definitivamente, não se leva a sério.

O gosto pelas histórias também se torna mais patente no período final: as narrativas passam a evocar figuras geométricas, caprichos das "1001 noites", são em si mesmas materiais de fruição pré-circense, exibem os seus esqueletos fátuos e brilhantes. Numa palavra: seduzem.

E o estilo, tornado maleável pela maquinaria de Hollywood, adquire por fim a complexidade de um formalismo assumido e desenvolvido até à exaustão. Cada enquadramento, cada movimento de câmara, cada gesto de actor ou peculiaridade do décor, cada mínimo elemento contribui para a construção semântica que o filme enceta. E por isso Ophüls pertence aos maiores (em "Lola Montès", filme que a sua morte prematura deixou montado sem o seu aval, ele já estava a modificar por completo o cinema).

Até a música dos últimos filmes é mais inspirada (Ophüls é todo melodia). Como esquecer a cançãozinha das prostitutas de "Le plaisir", provavelmente a sua obra-prima?

Trata-se, no fundo, da diferença entre falar de champanhe ("Letter from an unkown woman") e ser o próprio champanhe ("Madame de").

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