segunda-feira, janeiro 22, 2007

1938-2007

1. Ontem, não se encontrava o PÚBLICO em nenhum quiosque de Lisboa. Diziam-me que o jornal ia sair mais tarde do que o diário costume. Como se alguém quisesse esconder uma notícia, ou pelo menos escolher o momento mais adequado para a partilhar. Falava-se em mudanças de gráfica (agitação nas letras, portanto). Consegui comprar o jornal ao fim do dia, quando regressava ao Porto: Fiama Hasse Pais Brandão tinha falecido.

2. Muito bonita, clara, e justa, a maneira como, nesse jornal, Luís Miguel Queirós se aproximou do legado da autora.

3. Confissão escandalosa: De Fiama, só li a colectânea que a Teorema fez da sua poesia até aos anos noventa. Desde então, a poeta escreveu mais 4 livros, incluídos recentemente na "Obra Breve" da Assírio & Alvim, livros esses que foram os que mais sucesso e consenso granjearam junto da crítica e do público, mas que francamente eu não conheço. E no entanto, já Fiama se havia tornado uma das minhas poetas de eleição. Ou seja, não só o melhor, para mim, ainda está para ser lido (fixe, fixe), como se torna evidente que a sua obra é, desde o início, muito cativante, e que Fiama, com o passar do tempo, foi escrevendo cada vez melhor (o que é raro).

4. Jorge Silva Melo diz que o teatro de Fiama pertence ao futuro, porque ainda não temos os meios para o fazer. E digo eu: apressemos o futuro.

5. Escrevi este pequeno poema numa altura em que pretendia fazer um conjunto de comentários líricos às obras dos autores portugueses que mais me interessavam. Acabei por só concluir este, e como não tenho intenção de o publicar em livro, faço aqui a partilha:

f.h.p.b.
o rural e o experimental
seu mútuo atear
só pode cumular em simbólico verão

é preciso traduzir as línguas do fogo
(suas mútuas heresias)
para que arda a alma toda
não o corpo

num cômoro de cinzas
não digo chama
mas Fiama


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