segunda-feira, dezembro 31, 2007

Nota Mizoguchi




















Como "Ivan Grozni", "Young Mr.Lincoln", "La chinoise" e "Non - ou a vã glória de mandar", o filme "Os 47 Ronin" de Kenji Mizoguchi é uma peça-chave para compreendermos a mitologia política do país onde foi realizado.

Trata-se de uma obra estranhíssima: a sua acção reduz-se praticamente a um debate (e negociação) entre os diversos sectores da sociedade para conferir legitimidade (ética e política) a um acto de pura vingança. Rodado durante a Segunda Guerra Mundial, este filme histórico é um óbvio comentário à tendência que os Homens têm para dotar a violência de uma caução de respeitabilidade. Enfim, é um olhar sem ilusões sobre a tradição bélica do Japão (que, obviamente, se alterou por completo após a tragédia atómica).

Não conheço nenhum filme sonoro anterior a "Os 47 Ronin" que apresente a solenidade de tom e a profunda lentidão de ritmo que este filme atinge sem nunca perder relevância nem equilíbrio. É uma espécie de maturidade cinematográfica avant la lettre.

Ao mesmo tempo, Welles filmava "Citizen Kane" e "The magnificent Ambersons". Todavia, se o americano usou o plano-sequência para atingir uma revolucionária montagem de imagens-tempo (segundo o ponto de vista de Deleuze), Mizoguchi partiu da mesma forma para explorar todos os ângulos de tempo que se movem dentro de uma imagem clássica. A sua câmara voa pelos cenários, e com esse movimento sem lirismo faz da multiplicidade dialogante da narração uma evidência ao mesmo tempo visual e histórica.

Situação Cronenberg














Depois de ter estudado obsessivamente o problema da mutação ao nível do corpo, o cineasta David Cronenberg parece querer agora transferir essa mesma preocupação para o âmbito do social. Assim o indiciam os seus dois últimos filmes.

No entanto, se no passado o canadiano provocou a própria mutação do género que elegeu como seu (nunca o filme de terror foi levado tão longe), não está agora a demonstrar igual ambição perante o novo tipo de cinema que quer fazer.

Há sempre motivos de interesse. Por exemplo, em "Eastern Promises", o autor propõe uma espécie de confronto entre a escrita-no-corpo (as tatuagens da personagem de Mortensen, que o ajudam na gestão do seu poder) e a escrita-após-o-corpo (o diário que relata a vida passada da prostituta, gerador do sentimento de revolta da personagem de Watts).

Há também uma certa atenção ao cinema dos outros, não tão bem gerida no que concerne a Coppola (de facto, "The godfather" é um filme irrepetível), mas profundamente assimilada no caso de Spike Lee (na denúncia da relação nunca assumida entre sexualidade e os diversos movimentos do social).

Todavia, a sensação que nos fica é a de um relativo excesso de pudor na gestão da própria mutação que o realizador está a sofrer.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Além da indefinição

"Além da vida não há vida alguma.
Com ou sem sombra estamos sempre nela
- agasalhando pelo tempo a bruma

ou, se de ambos despidos, vendo-a a ela."


Fernando Echevarría, "Introdução à Filosofia"


No escrínio 33

Primeiro soneto do tríptico "Última lição de psicanálise", de Fernando Echevarría:



Que triste que era não ser triste nunca.
Andar à chuva como deve andar

quem por ela se molha e nela estuda,

pensando dela o que pensado está.


Ou passeando ao sol do mesmo modo.

Como se andar por ele andasse em si,

nem triste nem alegre, mas só como

ao sol a que anda e que se move ali.


Com, evidentemente, a consciência

de passar no relevo dessa imagem

como se passa pela indiferença


de se saber um ponto na paisagem.

E de saber que nunca houve tristeza,

nem ser triste foi triste, mas passagem.



A obra literária de Fernando Echevarría é inseparável do impulso metafísico que anima o seu autor. Conta-se que alguns livreiros, perante a aparente tecnicidade conceptual dos títulos de alguns dos seus livros de Poesia, os colocam por engano na estante da Filosofia.

Esta ambiguidade conforma a própria ironia da sua poética: os seus textos hesitam sempre entre a melancolia que resulta do pensamento e a euforia celebratória do acto de cantar. Ora, o presente soneto apresenta a Psicanálise como a ciência que desfaz a ilusão emotiva do estado de tristeza (e de alegria, claro), ao denunciar as motivações intelectuais (em sentido lato) que lhe estão na origem.

Mas se esta é a última lição de psicanálise, isso pode dever-se não à finalização normal de um qualquer curso académico, mas a um corte de relações com a disciplina. No primeiro verso, diz-se "Que triste que era não ser triste nunca". É certo que o vocábulo "era" pode estar a ser usado com aquela displicência com que todos nós corrompemos o correcto "seria", e neste caso, o poeta estará a levantar uma mera hipótese. Contudo, "era" pode ser de facto um pretérito imperfeito assumido, o que já parece sugerir um convívio com a psicanálise no passado que, entretanto, se diluiu.

Nada disto é certo. A despeito da incrível força das suas epifanias líricas, a poesia de Echevarrría é muito pouco evidente. Certo é que o "relevo" do décimo verso é um baixo-relevo (é passar pela indiferença), e que o "saber" do primeiro verso do último terceto é um saber pobre e tautológico. A psicanálise faz com que andemos à chuva pensando dela o que (já) pensado está (formulação obviamente derivada da expressão popular "chover no molhado").

Certo também é que uma das tristezas do poema faz a psicanálise da outra tristeza (como sempre acontece na homografia).Mas qual será mais (pro)funda e decisiva: a lucidez que desmitifica o conhecimento ou a emoção irracional que nos sugere que somos mais do que um ponto na paisagem? Ninguém pode entender o orignalíssimo discurso de Echevarría sobre o divino, sem passar previamente por este belo poema.

"Paranoid Park" - imagem

O ACTUAL 15

"Paranoid Park" - Gus van Sant


O último filme do oficioso realizador de Portland, U.S.A., abre com o longo plano de uma ponte atravessada por automóveis, cuja velocidade é exponencialmente intensificada pela própria aceleração da velocidade da imagem. Assim filmados, os veículos parecem de facto pequenos skates em trânsito frenético entre as duas margens da vida.

No entanto, van Sant não constrói pontes que expliquem a tragédia que resolveu encenar. Tudo aquilo que poderia ser usado como nexo de causalidade (a incapacidade educacional dos adultos, o desmembramento familiar, o eco da longínqua guerra no Iraque) é meramente apontado e condenado a manter-se ponta solta que não consegue explicar nenhuma biografia.

O único nexo que nos é dado é o gesto de Thanatos (pelo menos assim acontece desde "Gerry"). O que neste filme adquire uma evidente amplitude simbólica: o adolescente pretende fazer a passagem do seu movimento individual de liberdade (materializado na prática do skate) para o movimento da complexidade adulta (o comboio é um produto do maturidade humana), e é nessa tentativa de transição que a tragédia se dá. Para não ser apanhado no seu ilegal surf no comboio, o adolescente usa o seu skate como arma de agressão e provoca acidentalmente uma morte.

O registo do perigo que assombra a maturação da juventude contemporânea toma então, como ponto de partida, a estética juvenil (abuso de slow e fast motion, tangentes ao video clip, escassez de planos fixos, etc.). No entanto, van Sant adensa todo esse formalismo mtv ao denunciar o substrato trágico que lhe está latente. Através da narrativa, através da ironia (os video clips acompanham por vezes música erudita ou bandas sonoras de filmes), através do modo de filmar (quando capta as perícias dos skaters, a câmara move-se como se ela própria estivesse sobre um skate, mostrando-se incapaz de dar uma imagem plena do seu objecto, como conseguiria através de um travelling tradicional).

Se a narrativa-em-labirinto não parece tão justificada neste filme concreto (em "Elephant", não só a narrativa não nos levava a lugar nenhum, como a própria câmara percorria os corredores da escola como se estes formassem um labirinto), a visualidade do autor (e seu director de fotografia) está em plena forma. Basta mencionar o plano em que, quando o pai do protagonista está desfocado nos parece um burguês de classe média, mas quando de súbito a câmara o foca ele se revela uma espécie de proto-marginal infantilizado.

Enfim, a culpa continua a ser uma questão (questão paranóica, claro). No entanto, esta culpabilidade está mitigada pela ausência de dolo e por isso pode ser resolvida pela terapêutica da escrita. Não: isto não é o crime-e-castigo-em-skate. É o cinema americano a saber falar muito bem sobre a juventude.

domingo, dezembro 16, 2007

Tradução 4

Poema "O bom dia" de John Donne, traduzido por mim:



Pergunto-me, por minha fé, o que eu e tu
Antes do amor fizemos? seríamos rústicos
Miúdos 'inda por desmamar? arfávamos
Na caverna dos Sete Adormecidos?
Assim era.
Salvo este, todos os prazeres são caprichos.
Se alguma vez beleza alguma eu vi,
Desejei e alcancei, foi mero sonho de ti.

Agora, bom dia às nossa almas que acordam
E não se olham uma à outra devido ao medo;
Porque o amor, todo o amor de outras visões controla,
E de um pequeno quarto faz um universo.
Deixa que alguns por mar descubram novos mundos,
Que a outros os mapas mostrem os restantes fundos,
Fiquemos nós co' aquele que temos e somos.

Surge em teus olhos o meu rosto e surge o inverso,
Pois todo o puro coração jaz no semblante;
Onde acharemos nós dois melhores hemisférios
Sem o cortante Norte nem o Oeste declinante?
A morte é uma mistura não proporcional;
Se os nossos dois amor's são um, ou tão igual
É cada qual que nenhum pode embrandecer,
Nenhum pode então morrer.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Douta ignorância

A criança, o pré-adolescente, o casto, a solteirona, o sacerdote lorpa, o marginalizado, o impotente, o assexuado-dizem-os-psis, o promíscuo incorrigível, o anjo, o autista...

Quem nunca teve uma relação sentimental, pode sempre imaginá-la guiando-se por aquilo que todos lhe dizem (todos: pessoas, livros, filmes, animais, plantas, paisagens...). Como Dürer fez com o seu famoso rinoceronte.

Logicamente, o ignorante cometerá erros de cálculo: um corno que não é suposto existir naquele sítio do amor, uma pele demasiado sofisticada, a desproporção abstracta entre as partes que constituem o todo. E etc., e etc.

Bagatelas.

O desenho do ignorante sobreviverá à passagem do tempo. Mesmo à passagem do tempo sobre o possível ganho de experiência do desenhador. Em parte por causa da intuição, mas acima de tudo porque um rinoceronte é sempre fácil de conceber.

Reinos em conflito

Após ter decidido viver para sempre no cimo das árvores, o pequeno Cosimo entra no jardim dos vizinhos rivais da sua família (sem nunca tocar no solo). Aí encontra a menina Violante, brincando coquettemente com o seu baloiço. De imediato elaboram um tratado alegórico definindo os seus territórios e respectivas legislações.

Enfim, há quem lhe chame outra coisa.




"- E o baloiço a quem pertence? - perguntou ela, sentando-se com o leque aberto nas mãos.

- O baloiço é teu - estabeleceu Cosimo -, mas como está ligado a este ramo, depende sempre de mim. Portanto, quando bates com os pés na terra para dar impulso, apoias-te em território teu, mas quando andas pelo ar estás em meu território."


Italo Calvino, "O barão trepador"

Ensaio geral

Se com os meus poemas pretendo conquistar o maior número de pessoas que eles merecerem (conquistar ao estilo Afonso Henriques, claro está), não tenho igual ambição para os ensaios.

Os sistemas de pensamento acabam sempre por se perder na sua própria perfeição, a ideia brilhante facilmente descamba em norma ignorante ou lei de tirano, a realidade está sempre a rir-se da inteligência.

Com os ensaios procuro apenas multiplicar os pontos de vista, pôr alguma coisa em causa, ou mesmo tudo, interrogar, agitar. No fundo, não lhes dou uma importância superior à que daria a uma vulgar caralhada. Que é coisa que eu não digo, e por isso sublimo na prática do ensaio.

É a caralhada no máximo da sua elegância.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Descoberta no Thyssen-Bornemisza



Hans Baldung (discípulo de Albrecht Dürer)

Partilha 25

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de viagem.)


Não é um comboio, mas também tem um ecrã: é o autocarro que me transporta do centro do Porto para a minha casa adormecida num subúrbio gaiense.

Atravessamos a recém-nascida Ponte do Infante. Como estou acomodado nos assentos da metade direita do autocarro, a paisagem urbana e fluvial que me é projectada, é quebrada a meio pela presença da Ponte de D. Luís. De imediato, faço íntima a viagem pública: aquela ponte é o eco desta, D. Luís o eco do Infante.

Viciado em analogias (e a metáfora não pode ser substituída por nenhuma metadona), suponho que este é o modelo da construção de um poema. Há uma experiência vital que atravessamos (a ponte que nos suporta), e há uma coisa outra, distante, um eco, que é essa experiência vital tornada poema: é o território da imagem.

Até aqui, nada de entusiasmante: arrisco-me a chegar a casa abanando minhas mãos vazias. No entanto, tento atirar-me de cabeça para a profundidade da analogia: o que distingue a ponte onde estou da ponte que apenas avisto? Ambas têm uma arquitectura semelhante (as diferenças são variações causadas pela diferença de tempo). As pontes distinguem-se pelos seus meios de transporte. Uso a palavra transporte naquele sentido que (Deus nos livre…) o usavam os poetas antigos: o que distingue a experiência vital da experiência estética não é tanto a sua forma, mas os meios que cada uma utiliza para provocar o seu arrebatamento. O poeta é, de facto, um fingidor, enquanto o homem não passa de sentidor.

Que alguns tenham querido colocar os seus poemas no bas-fond de S. João (Breton, Péret), que outros, mais surreais ainda, se supuseram em plena Arrábida (Rimbaud, Rilke), que outros imaginem o rio como uma Via de Cintura Interna, em que o inconsciente se reencontra com o sublime (Char, Pessoa), nada disso altera a equação modelar, essencial, invariável.

E no entanto, que aconteceria ao meu pensamentozinho de trazer pela casa onde ainda não cheguei, se eu estivesse a passar numa ponte de Paris? Drogado por um Sena de pleno excesso, veria a minha experiência vital multiplicada em dezenas de ecos cada vez mais distantes, verdadeiro seixo pinchando ao longo da água lisa, série infinita de harmónicos onde a poesia seria amplificada a um tal ponto, que se tornaria, definitivamente, maior do que a vida.

Acabo esta viagem, então, com uma citação onde poderia facilmente habitar: “Un rayon blanc, tombant du haut du ciel, anéantit cette comédie.” (Rimbaud)

quinta-feira, novembro 29, 2007

Low cost holiday



Uma saltada a Madrid, para ver Dürer, Velásquez, Goya, o século XIX do Prado...

Como nas canções

Quando eu atingir uma certa idade, espero que surja na vida o som de um contrabaixo: grave e tocado directamente com a mão.

terça-feira, novembro 27, 2007

Crónica da chuva


Não tenho especial prazer em andar à chuva. Sinal, afinal, de que não sou tão tolo quanto precipitadamente me julgam.


Prefiro ficar de cima, despejando os cântaros (há quem lhe chame potes) de onde a chuva cai. Esta auto-sãopedrização não deriva de qualquer vaidade ética, mas do meu gosto por chaves que não sejam mestras (gosto partilhado por todos os tolos que acreditam em almas -desconfortavelmente- siamesas).

Os ingleses fazem chover gatos e cães, o que é simpático mas pouco prático: especialmente em Portugal, muitos andam por aí vadios a cheirar os cadáveres da sua própria condição (são gatos e cães de raça skeleton key).

Dos meus cântaros, eu faço chover outras coisas. Já disse num poema que eram peças de lego. Um pouco construtivista de mais, é certo. Mas não é que a construção final se reduz ao mero vapor do ciclo da criatividade infantil?

Fazer chover maná? Isso era no tempo das mercearias: a papinha vem agora toda feita em tétricos packs.

Chover é folhas de trevo(a) que completem quem ainda só tiver três. Chover parafusos sem fim para quem tenha a cabeça demasiado porca (quem lhe falte apenas um, não saia à rua nesse dia). Chover as jubas fluorescentes que vão desaparecendo aos dentes-de-leão. Chover minúsculos Baedekers para que as joaninhas conheçam outro destino que não a capital. Chover o que falta à catedralita do Gaudí, chover títulos do Hemingway sobre o Kilimanjaro ou chover vestidos de himeneu sobre o túmulo de Antígona. Chover as bolinhas dos sinais de percentagem das taxas de eu- juro.

Chover seja lá o que for, mas chover com garra, lata e abundância. Um dia virá a Asae e proibirá a chuva. Ou pelo menos a imaginação miudinha.


(Imagem de Animesh Ray)

Tudo menos o meio-termo

A metáfora apenas tem o rigor do olho nu, não está para além ou para aquém da pele como as humanidades ou as ciências. Por isso, podemos sempre escolher a metáfora mais conforme ao nosso impudor perante as coisas muitas do mundo.

Custa, de facto, acreditar que um ser não tenha sido criado. Nós que, demasiado humanos, criámos e criamos tantas coisas que depois sabemos não poderem chegar a ser a não ser mediante prévia autoria e que, de qualquer modo, vivemos na fé dos nexos de causalidade sem os quais o cosmos regride até à mitologia, nós não podemos conceber um ser sem criador. No entanto, essa incapacidade que nos leva, silogismo após silogismo, até à figureta de Deus, pode ser mero defeito da nossa estrutura, defeito esse de que nem animal nem planta nem marciano nem anjo parecem padecer.

Podemos, isso sim, fundar a nossa crença com base na metáfora mais cara à nossa privada seita verbal. Teremos de continuar a entender o Demiurgo como uma espécie de Super-Consciente com capacidade de tudo inventar a partir da sua lúcida vontade? Nós, que já passámos pelos surrealistas, pela criatividade dos loucos e pela imaginação das crianças, nós não poderemos partir do pressuposto de que o Criador era-é um absoluto Inconsciente? O Inconsciente do Universo.

Assim, o Inconsciente como a única dimensão da imanência que nos é por definição transcendente, e que explica a dinâmica de prazer e crueldade com que todo o cosmos funciona (e que o Homem-só-o-Homem fez descambar em caridade e violência, como tão bem notou Calvino no seu "O visconde cortado ao meio"). Uma Pura-e-Inesgotável-Imaginação que não previu nem o amor nem a guerra, indiferente às Igrejas que sempre a tentam ler segundo metáforas de retórico medíocre, vero Poeta da matemática.

Deus no qual não é preciso crer, mas apenas viver.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Galeria 32



Fernando Echevarría

Orfeu não era apenas poeta

O mais fascinante na escrita de ensaio é a necessidade de constante retorno ao texto já escrito para se afinar o que ficou pobremente expresso, incompleto, ou sujeito a contradição. Se na ficção se volta atrás essencialmente por questões tecnicistas (não trocar o nome de um personagem, não fazer viver gente que já morreu, não perder o fio da narrativa, aprimorar o estilo), o regresso do ensaísta a si mesmo é sempre um compromisso de rigor, um caso de vida ou morte da honestidade intelectual.

Adenda a "Vivre sa vie"

Como me pareceu que o post mencionado neste título entrava em ligeira contradição com o meu pensamento geral, senti necessidade de escrever esta pequena adenda. De qualquer modo, a contradição é o instrumento mais útil para afinarmos a nossa mundividência.

Continuo a achar que é o imaginário que fundamentalmente comanda as acções humanas. Mesmo no consumo (sobretudo no consumo) ou na dedicação laboral, o que essencialmente move as pessoas é a satisfação imaginária que podem retirar de um bem, de uma situação financeira ou de um estatuto social. Compro umas calças porque não seria louco ao ponto de andar nu, porque me quero integrar nas expectativas quanto ao meu género sexual, porque quero ficar giro, porque quero mostrar o dinheiro que ganho. Ninguém me venha dizer que compra calças para não apanhar frio...

Por isso mesmo, a contribuição da criação artística para o imaginário não pode ser leviana (ou eu assim o entendo). Se os produtos criativos engendrarem um imaginário pobre, simplista, calculista, sem respiração, estarão então a contribuir para o empobrecimento de cada concepção individual de vida e para a submissão progressiva de cada cidadão a uma escravatura intelectual não declarada.

Se o que se procura no convívio com a criatividade não é a profunda amplidão de que o espírito é capaz, presumo que seja melhor viajar, participar na festa futebolística ou ir à discoteca. Sempre são formas de encontro, surpresa e emoção. Um dia serei enterrado por pensar isto: se alguém não precisa de arte, mais vale desprezar as indústrias de entretenimento cultural.

Há tantas coisas interessantes para fazer...

Loosening it

Após o visionamento do filme "Control" de Anton Corbijn, fiquei com a sensação de que o drama que dilacerava o vocalista dos Joy Division era mais específico do que à primeira vista pudesse parecer.

Ian Curtis talvez fosse um criador enraivecido porque o seu pensamento não era suficientemente livre. Ainda fazia distinções artificiais entre família (que ele definitivamente entendia como uma instituição burguesa respeitável) e amor, entre ética e liberdade, entre trabalho e prazer. Como tudo nele era sinceridade, as suas performances tinham de ser forçosamente excessivas: apenas dor, nenhuma volúpia.

De qualquer modo, ainda hoje se constroem muros entre aquelas dicotomias, se bem que quase ninguém desespere (porque quase não há seres sinceros consigo mesmos).

A família continua a ser vista como um espaço de obrigação e moralidade e não como um tempo de liberdade e imaginação. Só o afecto nos vai redimindo.

Pensamento libertador

"(...) numa moeda: ou vejo a cara ou a coroa. Não posso ver as duas faces simultaneamente. Mas podemos, com um espelho."

José Croca, Prémio Galileu de Física, em entrevista ao JL de 21 de Novembro.

sábado, novembro 17, 2007

Vivre sa vie

Eis uma falsa questão: saber se um determinado produto do imaginário pode ou não provocar mudanças na realidade.

Fala-se sempre de Marylin Manson e dos adolescentes que provocam chacinas em escolas, dos carrascos nazis a ouvirem Mozart, da "Grândola Vila Morena", da profunda canalhice de um poeta católico como Claudel, e de muitos outros prós e contras. Aliás, os poetas hodiernos adoram minimizar a relevância da sua criatividade.

Eu diria antes que há pessoas para quem a vida e a arte são os dois atributos da mesma forma de ser. Não conseguem ir criando a sua vida sem irem vivendo a sua arte. E se a vida é questão de vida ou morte, a arte é questão de realização (em sentido lato) ou infelicidade. E nesses seres, só nesses, a arte muda a vida e a vida muda a arte (sem que isso se traduza em causas-e-efeitos puerilmente discerníveis). Ou seja, aquilo que eu espero da vida é também aquilo que eu espero da arte (apesar da diferença de ontologias). É uma maneira de estar, entre muitas outras.

E não tem nada a ver com elitismo. Pois se todos precisamos de vida como o senhor de La Palice, nem todos precisamos de arte (embora essa necessidade se possa transmitir e adquirir tardiamente). E por isso nunca entenderei a obsessão com o sucesso nas actividades criadoras: o imaginário, quando desvirtuado, só provoca escravatura.

O coleccionador 11

"A espada de Bijomaru" é um pequeno filme dos anos quarenta, realizado por Kenji Mizoguchi. É uma parábola interessante que faz corresponder a aprendizagem da vida por parte dos jovens (metaforizada no aperfeiçoamento da arte de fabricação de espadas) à progressiva eliminação da geração mais velha. Literalmente, a espada-símbolo força o enredo a dar um golpe fatal nos adultos que já viveram, para dar oportunidade aos adultos que querem começar a viver. Apesar do happy end, é um filme de alguma violência.

Nas cenas em que o protagonista e o seu companheiro de ofício tentam produzir a espada que servirá um propósito de vingança justa (dizem eles...), o constante matraquear dos instrumentos usados neste artesanato na superfície da folha da espada provoca inesperados brilhos, que perturbam a serenidade do preto-e-branco com o seu excesso de comoção. São incandescências que ao mesmo tempo expõem a violência que está apenas latente no enredo, e aceleram a exaltação lírica em torno de um objecto tão importante na cultura japonesa.

A um dado momento, surge o fantasma da vivíssima rapariga amada pelo personagem central (em torno da qual gira toda a questão da vingança de honra, mas que não está presente na oficina), e dá a ajuda prática decisiva para que os dois obreiros logrem fabricar a sua espada. De repente, a natureza espectral (espiritual) desses brilhos é frontalmente revelada.

Não sei se o brilho pertence, de facto, a este mundo - e teria o maior respeito por alguém que quisesse escrever a História do Cinema através dos seus Brilhos.

Nasdaq



Segundo o último relatório de cotações, neste momento uma imagem vale 753, 22 palavras.

Os não-leitores

O artigo que Rui Tavares disponibilizou no PÚBLICO de terça-feira passada foi mal recebido pela colunista que com o historiador faz uma espécie de ping-pong de última página. Tavares tinha tido o cuidado de defender a equilibrada atitude de Zapatero, primeiro ministro espanhol, na cimeira-circo onde o famigerado presidente venezuelano foi dizer os seus disparates, em detrimento da atitude tempestuosa do rei espanhol (que o levou ao já célebre "Porqué no te callas?). Helena de Matos veio logo falar de parcialidade ideológica, de desculpabilização do ditador sul-americano, etc.

Eu por acaso até nem concordo muito com Rui Tavares. Nestas coisas de política, gosto de ver o pessoal a perder o verniz. E acho muito bem que se mande calar um imbecil (partir loiça, partir loiça!). No entanto, quem ler o seu artigo com imparcialidade, percebe que o colunista não estava a tentar tomar partido por Chávez, mas simplesmente a defender a atitude que lhe parecia mais consentânea com a boa prática da democracia.

No entanto, eu conheço bem essa histeria (passe o insulto) que certas palavras e ideias sempre provocam nos leitores apressados (e infantilmente convictos). Lembro-me de uma vez ter escrito um poema em que descrevia como um conjunto excessivo de inspirações me levara a uma espécie de asfixia silenciosa. A palavra inspiração fora usada por comodidade, e basicamente referia-se aos estímulos provocados pelo real. Pois desde então, os meus parcos leitores acham (e acham mesmo!) que eu acredito na ilusão romântica da inspiração (conceito desajeitado que não consegue esclarecer a sensualidade com que a mente pode funcionar). Aliás, se falo de místicos, sou católico. Se menciono utopias, sou comunista. E etc., etc.

Há sempre demasiadas comichões, demasiadas peles de galinha, demasiados cabelos que se eriçam na cabeça, e muito pouca honestidade de leitura.

Todos os acentos são ridículos

Dizem os especialistas que não podemos opinar sobre o que não sabemos. A minha opinião é: discordo.

O que os especialistas têm é de nos apresentar as razões científicas, técnicas, filosóficas, etc., que os levam a defender esta ou aquela ideia ou prática, e em seguida dar espaço aos não-especialistas para aceitarem ou não a proposta. Será que não podemos votar nas eleições legislativas porque não percebemos nada de economia, direito ou política internacional? Isso afigura-se absurdo.

Num programa recente da RTPN sobre a iminência (bem pouco iminente) da assinatura do Acordo Ortográfico pelos diversos países onde se fala português, chegou a levantar-se a hipótese de, em nome da maior facilidade de aprendizagem e aplicação da língua, podermos um dia chegar a suprimir os acentos ortográficos.

Só queria dar a minha achega. Estou neste momento a aprender russo. Ora, o enigmático povo de Dostoievsky tem a nefasta mania de não acentuar palavra nenhuma. Supõe-se que o falante saiba qual a sílaba tónica de cada palavra, apesar de ela não estar graficamente assinalada. Pior a emenda que o soneto: quando tento ler um texto em russo, nunca sei como pronunciar as palavras (a não ser que tenha decorado anteriormente a sua correcta sonoridade).

Aliás, durante as lições preparatórias, todas as palavras são acentuadas para... facilitar a aprendizagem aos corajosos aprendizes de tão distante e distinto idioma. O meu professor insinuou mesmo que talvez se estivesse a tentar inverter a prática da não acentuação no seu país natal.

Preferia, pois, que me dissessem que é preciso simplificar as regras de colocação dos acentos, e não que defendessem (ainda que um pouco oniricamente) a sua pura e simples abolição.

Tradutor: leal libertador

A tradução de um texto não deve ser um acto de virtuosismo, mas de sensualidade.

No momento presente, parece-me que não faz sentido que um tradutor se esmere a respeitar rigorosamente a métrica de um poema original na proposta de leitura que dele faz. A partir do momento em que o verso livre (em sentido lato) se tornou culturalmente mais relevante do que as antigas regras de versificação, já ninguém espera que um poema traduzido seja uma pirueta formal. Essa obsessão pode mesmo descambar num artificialismo obscuro que em nada faz justiça ao autor que se pretende comunicar.

No meu caso, essencialmente tento que o texto traduzido me dê tanto prazer a dizê-lo quanto o texto original me deu. Isto obriga-me a respeitar a cadência rítmica que o poeta me propôs, mas não a sua dieta rígida (por exemplo, na tradução de "O convite à viagem" intercalei sempre dois versos curtos com um ligeiramente mais longo, sem contudo me espartilhar na alternância entre redondilha menor e redondilha maior). Obriga-me essencialmente a fazer, de cada tradução, não um acto de historicismo mas sim a evidência da paixão que em primeiro lugar me moveu.

E para isso nem é preciso ser poeta: basta gostar honestamente de poesia.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Porqué no te callas?



(Pintura de E. Munch)

Tradução 3

Poema "O convite à viagem" de Charles Baudelaire, traduzido por mim:


......Minha irmã, minha filha,
......Imagina a delícia
De irmos viver para ali!
......Amar sem correr,
......Amar e morrer
No país igual a ti!
......Os sóis alagados
......Desses céus turvados
Em mim provocam o arroubo
......Dos teus misteriosos
......E pérfidos olhos,
Brilhando através do choro.

Lá, tudo é ordem e fausto,
Quietude, volúpia e encanto.

......Mobília reluzente,
......Polida desde sempre,
Decoraria o nosso quarto;
......As mais raras flores
......Misturando os odores
Com os perfumes do âmbar vago,
......Ostentosos tectos,
......Profundos espelhos,
O esplendor oriental,
......Tudo falaria
......À alma em surdina
A sua doce língua natal.

Lá, tudo é ordem e fausto,
Quietude, volúpia e encanto.

......Vê nesses riachos
......Dormir esses barcos
Cujo humor é vagabundo;
......É p'ra cumprir o ensejo
......Do teu menor desejo
Que eles vêm do fim do mundo.
......- Os sóis declinando
......Revestem os campos,
Os canais, toda a cidade,
......Com jacinto e ouro.
......É o mundo em repouso
Numa quente claridade.

Lá, tudo é ordem e fausto,
Quietude, volúpia e encanto.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Partilha 24

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de viagem.)


Terceiro comboio: viagem entre o Cais do Sodré e a estação de Belém.

Sou presenteado com uma voz-off que é apenas íntima da distanciação. Da narrativa, fico a conhecer nada mais que a conjectura das fermatas, os momentos em que, para que se escancarem as portas da emoção, a pulsação do comboio irá abrandar até à imobilidade.

Mas não é este o assunto que aqui me prende. Antes da voz-off debitar o primeiro ensaio da sua futurologia cirúrgica, cardíaca, os viajantes são anestesiados por quatro notas musicais (três semicolcheias, talvez precedidas por uma pausa referente à mesma figura, e uma semínima conclusiva) tocadas num instrumento artificial e irritante. Reconheço os mesmos intervalos que introduzem (na mão esquerda) a quinta Sinfonia (para três vozes) composta por J. S. Bach para instrumento de tecla.

A partir daqui, poderia imaginar que a viagem de comboio passaria a corresponder a uma espécie de música tácita que todos os viajantes saberiam de cor na medida em que não passaria de um subtexto. Até poderia tentar adivinhar-lhe as vozes: o baixo assegurado pela continuidade do meio de transporte, suportando o jogo mais agudo entre o pensamento dos viajantes e a melodia transcendente da paisagem.

Mas ainda não é esta a minha paragem. Pois o que se me afigura encantador é o facto de, por um acaso feliz, a empresa transportadora ter complementado o seu discurso monótono com uma inesperada citação. Bach citado no início de uma viagem de comboio, não tanto epígrafe, mas verdadeiro mote de um diálogo que se estabelece ao longo das duas pautas dos carris.

Ora, isto abre todo um conjunto de hipóteses de erudição. Pois a gravata do senhor X pode conter uma cor que foi trabalhada até à exaustão por Matisse, uma senhora fala-barato pode sem querer improvisar meio verso escrito há muitos anos por Alexandre O’Neill, um par de namorados repete uma cena de uma comédia cinematográfica que nunca viu.

Sem disso ter consciência, o mundo acolhe em si pequenos fragmentos da vida intelectual. O mundo é erudito malgré lui, não consegue viver sem as citações que lhe dão sentido, beleza e história. E poderíamos alargar o âmbito desta vida cultural: pois a parangona de um jornal diário pode ter sido um achado verbal de um anonimíssimo senhor Y há muitos anos atrás, um sabor aperfeiçoado num restaurante pode uma vez ter sido encontrado por uma dona de casa distraída que se enganou nos ingredientes de uma receita, um poema medíocre de amor repete, linha por linha, outro poema medíocre de amor, escrito por outra pessoa num outro tempo segundo a mesma inspiração banal e adolescente.

Afinal, o que será o amor se não a citação reiterada até ao infinito de um erro de um qualquer par no princípio da história, a citação do génio do inconsciente, do acelerar do coração, da força da erecção?

Por que razão há quem se revolte contra o hábito da citação, quando nada há neste mundo que não seja a referência a uma outra coisa qualquer?

Encontrar algo que não seja citação será tão estranho quanto sair na estação de Belém, e ter nas mãos ouro, incenso ou mirra para presentear um infante que só vai fazer descobrimentos. E, hélas, a pólvora já foi descoberta há tanto tempo… Não se pode presentear sem igualmente passadar e futurar.

Malinconia

Viajava de comboio entre Lisboa e Porto. Experimentei fazer o percurso armadurado com os auscultadores do meu iPOD (é o que, afinal, arriscam muitos intrépidos viajantes).

O comboio fazia uma barulheira exorbitante, malcriada. A princípio, senti que os meus delicados ouvidos estavam a ser trespassados pelo gume da poluição sonora. Mas acabei por me aperceber de que a evidência terra-a-terra do esforço do veículo apenas tinha a faculdade de acentuar a melancolia das harmonias pouca-terra que sempre levo comigo.


(Imagem de Anne Arden MacDonald)

Publicidade 1

Deliciado por andar a vaguear pelo centro da cidade (onde outono, abandono e nebulosidade descentravam qualquer veleidade de abrigo), deliciado afinal por não estar dependente da atmosfera artificial de um centro comercial, decidi almoçar num pequeno café sem sofisticação chamado "O Astronauta".

O empregado já se movia com excesso de grave idade. Por trás do balcão, havia uma daquelas mulheres nas quais já não é possível distinguir entre sentido de humor e agressiva idade. Não havia Coca Coca Light (o eterno alibi para encobrir a dieta que não cumpro), não havia o B de melão (claramente o lado B desse incumprimento) e Compal de pêssego já só em versão natural. Parecia que o Destino me queria forçar a beber uma cerveja, que é aquilo que é suposto os homens beberem. Vá lá, safei-me com um Compal de ananás: esse sim, libertariamente fresco.

O panado tinha todo o tamanho de um planeta e o arroz de feijão vermelho sabia mais a asteróides do que a esteróides.

Tudo normal: é o Porto dito genuíno.

No entanto, no fim do repasto, o arrastado garçon apareceu com um prato tosco cheio de castanhas assadas, quentes e de boa qualidade, e com um copo pronto a encher de jeropiga segundo a minha indiscrição. Oferta da casa (não, não era uma tartaruga ninja nem uma manta para o cão). E como eu gosto de um mimo esporádico! Qual cidade e as serras, ele agora é sonae e as cidades.

Por isso, se forem à Rua Passos Manuel, em frente ao Coliseu, não deixem de tomar uma bebida no:


CAFÉ ASTRONAUTA
DAMOS-LHE O ESPAÇO DE QUE PRECISA.

O hábito não faz o leitor

No último número do JL, Gonçalo M. Tavares confessou que fica sempre intrigado quando uma pessoa lhe diz que já só anda a reler.

Sou solidário na sua crítica a todos aqueles que, um dia, decidiram que eram velhos e se retiraram por completo do presente. A curiosidade é a nossa mais preciosa máquina-do-tempo (assim como o mais verosímil tele-transporte). Abdicar disso é abdicar da sua própria liberdade.

Mas já não partilho da vontade de ler tudo o que interessa. Nunca tive ambições de me fazer enciclopédia, nem me sinto compelido a picar o ponto de todos os altares da literatura. Interessa-me ler tanto quanto me interessa reler.

Assim como não gostaria de conhecer todas as pessoas interessantes do planeta, gosto de entrar em relações de familiaridade revisitada com os livros que me vão tocando. O erudito talvez seja o verdadeiro viajante, que parte sem rumo e não precisa de se prender a nada. Mas eu sofro é de filias várias, e por isso cedo sempre perante a volúpia que existe nos regressos, na aceleração de relações, no mistério sem glamour da fidelidade.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Específica tragédia

No final do delicioso filme "Les parapluies de Cherbourg", os dois personagens principais estão perfeitamente pacificados com a substituição do absoluto sentimental que viveram por matrimónios sem chama. É Jacques Demy, o realizador, quem está tristíssimo com a situação, e a comoção do filme resulta precisamente do facto das personagens não terem consciência do drama que provocaram.

Quando leio no jornal que o piloto que lançou a bomba atómica em Hiroxima (num avião que ele baptizou com o nome da mãe...) afirma que nunca perdeu uma noite de sono por causa do seu acto de infinitas repercussões, pressinto que estou perante uma tragédia resultante da falta de consciência trágica do seu personagem. Por muito duro que isto soe, este homem deveria ter sido profundamente infeliz. Mesmo tendo julgado que a catástrofe nuclear foi feita para impedir mortes no seu país, mesmo tendo sido um mero receptor de ordens superiores, o piloto do "Enola Gay" não deveria ter encontrado nenhuma saída airosa para a sua continuação nesta terra.

Eis um muito bom assunto para um filme americano.

"Written on the wind" - imagem

O INACTUAL 21

"Written on the wind" - Douglas Sirk (1956)


O intenso filme de Sirk é perseguido por uma sumptuosa estética de Outono. As suas imagens foram construídas de modo a apresentarem a mesma preciosidade doentia da folhagem das árvores quando sofrem o golpe lento da caducidade. No entanto, ao contrário do que acontece em "All that heaven allows", este não é o Outono do envelhecimento sereno. Este é o Outono da palavra americana fall, é o risco que desequilibra a superfície polida da beleza, a morte que se insinua no mundo dos ricos.

Na verdade, o autor filma a exuberância social como quem intensifica o seu poder de sedução. A realização sublima o fascínio natural que a riqueza propõe. Só o discurso vem nela assentar como uma ferida. Se para isso o cineasta teve de recorrer a uma ficção melodramática, tal deve-se à pretensão que Hollywood sempre teve de que os espectadores potenciais dos seus filmes não seriam capazes de sofisticação. De qualquer modo, o melodrama traz a carga quasi-expressionista necessária para que se estabeleça uma ruptura de profunda comoção entre o fascínio da imagem e a agressividade da intenção. A riqueza aparece assim associada à mais profunda irresponsabilidade.

Contudo, num filme invulgarmente ousado, onde os personagens falam com alguma frontalidade sobre as suas relações sexuais, uma das possibilidades de leitura que se abrem prende-se com o problema do incesto. Os três protagonistas (Mitch, Marylee e Hadley) vivem um afecto intenso (e tortuoso) desde a mais tenra idade. Dois deles são mesmo irmão e irmã, mas Mitch não se consegue distinguir da consanguinidade emocional que os coloca aos três em posições inflamadas de amor-ódio.

A relevância dada ao corpo é de certo modo ridicularizada pelo argumento (a excessiva importância que Hadley dá à sua parcial esterilidade é a causa do culminar trágico que precede o happy ending de encomenda). Toda a ficção poderia, aliás, ter sido escrita no vento: o flash-back inicia-se quando o ar agitado começa a desfolhar um calendário. O problema do incesto não se apoia, portanto, num critério físico (nesse sentido, a obra opõe-se ao "Édipo Rei" de Sófocles), mas num critério psíquico-temporal: o excesso de passado fraternal faz com que o trio seja incompatível do ponto de vista sentimental.

É preciso que o vento varra o passado, que o faça cair e nessa queda insinue o renovo que há-de vir. Surge então a personagem de Lauren Bacall, que vem construir o lugar da alma gémea. Mas desta vez sem problema: a irmandade que se forma foi constituída na idade adulta, o que faz com que a latência do incesto não se consiga impor.

Este estranhíssimo filme bíblico vem-nos dizer que os amantes são irmãos que se entre-escolhem livremente.

O caso Llansol

Maria Gabriela Llansol não é uma profissional da escrita. O seu estar-no-mundo não se resume a um trabalho técnico inserido numa cadeia de notoriedades e retribuições. A autora desenvolveu o seu próprio (des)sistema de pensamento (a mutação que a forma romance sofre às suas mãos é o resultado desse gesto) e, mais do que isso, é alguém que vive de acordo com o projecto que vai escrevendo (pelo menos, a julgar pelos seus diários).

A escrita de Llansol é um atributo necessário da sua vida singular (ou melhor dizendo: plural).

Presumo que, no fim da segunda parte de "Lisboaleipzig", a rapariguinha humana se esteja a referir ao fazer amor quando:

"(...) voltando-se para__________ o texto, diz-lhe:
- Quando, por instantes, fazemos coincidir no nosso corpo a minha ausência com o teu inomeado,..... posso ir do quarto das sombras, em direcção ..... do fio de luz. (...)"

Anotações cinéfilas

1. Parece evidente que o grande cinema contemporâneo é quase todo de índole documental. No meu ponto de vista, a diferença de qualidade entre as propostas do DocLisboa e do IndieLisboa é abismal (este ano, como só teria um dia para visitar o certame documental, resolvi nem lá pôr os pés para não ficar depois a curtir a curiosidade frustrada). A ficção ou é mercenária ou é pretensiosa, mas quase ninguém encontra o tom justo. Será que desaprendemos a imaginar de forma tão radical?


2. Sei que a minha parcial frustração com o cinema contemporâneo não deriva de um feitio reaccionário. Outros períodos houve em que a produção média da sétima indústria também não era exaltante. Basta lembrar a década de trinta do século passado, década de Josef von Sternberg, John Ford e Jean Renoir, é certo, mas momento evidente de decadência criativa perante o esplendor que o mudo havia atingido. O estar-imerso-no-seu-tempo não pode ser assumido sem uma postura crítica.

3. Quando o meu afecto pelo cinema sofre um pequeno ataque de melancolia, basta-me recordar a obra de Fritz Lang e torno-me de novo militante cinéfilo.

4. David Cronenberg é, precisamente, uma excepção fulgurante no presente. Independentemente do maior ou menor conseguimento de cada filme, a verdade é que o autor consegue construir imagens (cinema é imagens, não propriamente histórias) que colocam em causa toda a serenidade do espectador. Estou a falar na primeira pessoa: há momentos da filmografia de Cronenberg que me perturbam de uma forma que eu nem sequer ouso confessar. Momentos desestruturantes da personalidade. Será polémico afirmá-lo, mas parece-me que, dentro dos géneros que o canadiano decidiu adoptar, já não havia imagens de cinema com tanta força polémica desde James Whale e Tod Browning.

5. Tendo sido particularmente seduzido pelo seu documentário sobre Cesariny, fiquei curioso do progresso futuro de Miguel Gonçalves Mendes. O filme que, em conjunto com a coreógrafa Vera Mantero, realizou em torno da obra da Llansol, tem um conjunto de notabilíssimas imagens-fulgor. Diria apenas que, ao contrário do que parece, os livros da escritora de Herbais têm um fio condutor (fino, finíssimo, mas poderosamente condutor). Pelo contrário, senti-me um bocadinho perdido na obra audiovisual. Assim como talvez a montagem de Mantero (os dois autores fizeram duas versões independentes do mesmo material filmado) tivesse uma respiração e uma lógica mais consistentes do que as de Mendes. No entanto, isto pode ter sido o resultado do primeiro choque com um objecto definitivamente singular. Agora, que ele sabe filmar, disso não haja dúvidas.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Manuscrito



Presentemente, estou a escrever um ensaio sobre este magnífico texto (o XL de "O guardador de rebanhos") de Alberto Caeiro.

(Clique na imagem para aumentar)

História mal contada

Uma das ironias da nossa evolução social foi o encontro histórico fortuito que se deu entre a tendência para o Homem se organizar em famílias e a ideologia burguesa. Pois na medida em que a família é um órgão de dinamização dos afectos, estaria em princípio muito bem posicionada para funcionar como um laboratório de aventura (um lugar catalisador de civismos, liberdades e realizações múltiplas).

Ora, o burguês é aquele que abdicou da imaginação (independentemente da definição política, económica, sociológica que lhe quisermos dar). Pior: é aquele que acha que esse desprezo lhe garante, de facto, a felicidade (sei-o porque estou rodeado de burgueses por todos os lados). A família tornou-se, por isso, uma instituição de formatação infantil, nomeadamente ao nível da identidade profissional e da realização sexual/sentimental.

Defender a instituição familiar sem a criticar é uma prova de insegurança intelectual. Rejeitá-la com agressividade só pode levar a um empobrecimento emocional. A nossa vocação gregária precisa de ser pensada e vivida com outra largueza de horizontes.

Tiradas da boca

Nunca consegui verbalizar a razão que me leva a desconfiar profundamente dos cursos e dos manuais de escrita criativa. O jornalista Paulo Moura (no PÚBLICO de 4 de Novembro) encontrou as palavras que me faltavam:


"Praticar sexo segundo os conselhos de um sexólogo é como compor um poema segundo o manual de escrita criativa."

sexta-feira, novembro 02, 2007

A imagem fria por fora



(Pintura de Paul Cézanne)

Dicionário 15

"Não há respeito por ninguém;
por exemplo o diamante

não tem a utilidade de uma jóia:

é só um diamante (para um asceta)

só um dia amante (para um suicida).

Com uma jóia, sim, compra-se o mundo."

O poema de Luiza Neto Jorge de onde foi extraído este fragmento chama-se "Os frutos frios por fora". Mas nele a poeta declara que esses frutos "são por dentro aquecidos a electricidade".

Como as palavras, aliás. Dentro de si, o diamante só guarda a sua própria perfeição (que apenas pode interessar ao asceta) e o dia amante (aquele dia a partir do qual a felicidade se torna descendente, ou então aquele outro em que o suicida parte desta vida descontente).

Já a jóia, mais do que jóia é o escrínio onde se guarda a possibilidade de diamante, mas também a palavra italiana para alegria, ou a generosidade exemplar de alguns seres. A jóia é ainda o feminino de joio (que é o que as feministas separam do seu próprio trigo). E num sentido mais prosaico, a quota para poder ser sócio de uma associação qualquer (como a Vida S.A.).

Depois disto, alguém tem dúvidas quanto a cotações?

Adverbial parcialidade

Aproveito para assumir que sou inamovível, enraivecida, estupefacta, física e metafísica, infantil e profunda...

...mente contra o produtor da corrupção.

Sentados em círculo, conversam

".....- A terra quimérica do mundo.
.......- Onde só há alpendre - acrescentou a voz de Anna quebrando a regra do jogo.
.......Houve uma pausa, e disse ainda:
.......- Onde existem todas as histórias que contamos uns aos outros, e a nós próprios, os actos dos poetas, o som dos músicos; e onde os místicos procuram entrar, inteiros, com o seu próprio corpo.
.......- Tudo é casa de talvez - repetiu o cego, seguindo o mau exemplo. A sua voz levantou-se, mas a da jovem mulher cresceu primeiro:
.......- Onde se mudam as fraldas, se ajeita o naperon, se rega o vaso, se limpa o pó sobre o piano, se acende a vela, se abre o livro,...........e vírgula, e vírgula. Tudo por onde o gato salte sem quebrar nada."


Maria Gabriela Llansol

Confissão 24

Eu gosto imenso dos elementos que compõem o mundo: não concordo é com a maneira como eles estão conjugados.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Tradução 2

Poema "Correspondências" de Charles Baudelaire, traduzido por mim:


A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam 'scapar por vezes confusos vocábulos;
O Homem erra por estas florestas de símbolos
Que o observam com seus olhares familiares.

Como ecos demorados que ao longe se fundem
Em uma tenebrosa e profunda unidade,
Imensa como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons correspondem-se.

Como a carne infantil há perfumes bem frescos,
Como oboés, doces, verdes como as pradarias,
- E há outros, corrompidos, em glória, opulentos,

Detentor's da expansão das coisas infinitas,
Tal o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam a alma e o corpo em arrebatamento.


Para ler uma breve fundamentação da tradução, ver o meu blogue do myspace.

"Les chansons d'amour" - imagem

terça-feira, outubro 30, 2007

Partilha 23

(Continua a publicação de alguns textos do meu projecto abortado "Cadernos de Xochimilco". O seguinte excerto é um apontamento de viagem.)



Depois da luminosa viagem de comboio, percorro Lisboa com o auxílio do metropolitano (o estrangeiro só pode participar na vida paralímpica de uma cidade).

Mudam-se os meios de transporte, mudam-se os pensamentos. Levo, nas mãos, o segundo volume de “À la recherche du temps perdu” de Proust. Não conseguiria plantar toda essa flora verbal nas paisagens concretas que o comboio me havia proporcionado (questões de exigências climáticas por parte das palavras, que só se dão em estufas de imaginações incompletas). Mas agora que viajo no metro, que entre as estações só tenho direito a um negrume que absorve em si todas as possibilidades da fantasia, e que a qualquer momento posso ser depositado não tanto em Roma, na Praça de Espanha, ou no Oriente, mas nos braços dos Anjos, na fartura das Laranjeiras, ou mesmo na Pontinha (não há aqui nenhuma cedência ao imaginário erótico; para além da minha fixação, mais nobriana que propriamente lusitana, nos inhos, não consigo deixar de sonhar com a perspectiva de chegar mesmo à pontinha de qualquer coisa, do mundo, desta vida, etc.), penso que seria este comboio, e não a sua versão solar, que a qualquer momento me poderia fazer chegar à Balbec perdida no tempo de um livro.

(Divertimento: para construir a máquina-de-viajar-no-tempo, tomar em consideração a necessidade de a colocar num contexto de total ausência de luz. Só o negro, o vazio, é cheio de possibilidades feéricas).

Nota "Les chansons d'amour"

Tantos são os filmes musicais que se fazem e tantos os que saem falhados, que somos levados a suspeitar de que o desprezado género cinematográfico é afinal bem mais difícil de manejar do que parece.

Com uma cidade como Paris, uma referência como a Nouvelle Vague (que urge superar?), actores como estes (Louis Garrel é a personalidade masculina mais fascinante do cinema contemporâneo, Chiara Mastroiani está a tornar-se um monstro gélido como a mãe), e um assunto (de novo) escolhido com tanta elegância (a dificuldade do luto que pode mesmo levar à transgressão da orientação sexual), "Les chansons d'amour" poderia ser um filme bem melhor.

Christophe Honoré precisa de intensificar a sua relação (formal, sensual) com o cinema. No entanto, o que me leva a querer revisitar este cineasta é que ele joga os seus filmes na roleta do estado de graça. E não há fórmulas para encontrá-lo.

Haverá maior ambição?

domingo, outubro 28, 2007

O coleccionador 10

Os olhos


Estão maduros de lagos.
Que corpo feliz aguarda
essa água funda? Já tarda
sua madurez de afagos.
Vem-me a sede da raiz
dos ossos. E quanto fiz
ficou à margem do mundo
como um caminho de peixes
à espera de que o deixes
tentar as águas do fundo.


Neste poema de Fernando Echevarría, a força lírica resulta do constante upgrade do conceito de sede. Se nos primeiros versos, a necessidade do sujeito lírico é o carinho pós-juvenil, logo logo a sede se enraíza nos ossos como se essa carência não fosse apenas mais um aspecto da vida, mas a carência mais profunda (física, inconsciente, decisiva).

Por fim, o amor é revelado como gesto metafísico: toda a biografia do poeta se torna um caminho de peixes (imagem de uma beleza aterradora). Ora, a relação dos peixes com a água é uma relação de sobrevivência. A sede deixa portanto de ser um mandamento da alma e torna-se uma questão de vida ou morte: só se assim se pode tocar no fundo do Outro.

Em minúsculas

O arquitecto não é um artista. Não há pachorra para estetas, para megalómanos ou para construtores de castelos no ar. A sua função é tornar o mundo habitável. Habitável do ponto de vista utilitário, estético, relacional, político, filosófico. O seu prémio deveria ser o Nobel da Paz.

Em maiúsculas

Se os piores cenários de catástrofe ecológica passarem de visão a realidade, o capitalismo terá falhado com uma imponência com a qual o comunismo (que já falhou à grande e à russa) nem sequer poderia ter sonhado.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Madrigal de amor e guerra

Se ao lírico lhe é exigida uma musculatura cívica e anti-sentimental, ao encenador da violência também lhe tem de ser exigida uma verticalidade de pensamento e de prazer que legitime a sua vocação bem mais próxima da futilidade.

Linhagem vitalista

Normalmente, tendemos a considerar que a Ética é uma ficção (uma auto-contenção do intelecto perante o nonsense selvagem da vida).

No entanto, Espinoza veio dizer-nos que toda a lei ética pode ser deduzida da lógica do próprio mundo (de Deus), na medida em que mundo intelectual e mundo físico são apenas atributos (chamemos-lhes, com muito pouca propriedade, pontos de vista) de uma mesma Substância. A psicologia seria, portanto, a capacidade do espírito humano estar em maior ou menor consonância com a Razão.

Nada disto é verdade, claro. Mas o filósofo teve pelo menos a intuição de fundar a ética no próprio real, e não a despeito do real (como é o caso dos Dez Mandamentos herdados da transcendência). A lei resulta portanto visceral: é o resultado da nossa busca material de alegria individual e colectiva.

No cinema, ninguém filma a realidade (acreditar nisso seria uma ingenuidade gnoseológica). No entanto, na obra dos grandes autores éticos, o que dá plena força à dimensão ficcional do seu gesto (John Ford é um cineasta de discurso, Straub/Huillet filmam a literatura) é a pungência da realidade que documentam. Não há nenhum olhar, nenhuma entoação vocal, nenhuma majestade ou doçura erótica, nenhum sinal de vento ou de luz que estes autores filmem sem profunda comoção. É o cinema livre de fórmulas. O cinema de entrega à vida.

Se não se pode filmar a realidade, pode-se filmar a vitalidade com que esta se desmaterializa nas imagens. Quer-me parecer que o grande Pedro Costa, ao contrário do que ele próprio afirma, não pertence a uma linhagem realista, mas sim a uma linhagem vitalista.

Como de resto, muitos outros autores que ele talvez nem aprecie (Godard, Fellini, Paradjanov, etc.).

segunda-feira, outubro 22, 2007

Nota "O construtor Solness"

A peça de Ibsen (em cena no Teatro da Cornucópia) guarda em si algumas perversidades nada negligenciáveis.

Desde logo, a sugestão de que o protagonista terá cometido um abuso de cariz pedófilo sobre a personagem Hilde quando esta era uma pré-adolescente. Não porque a pedofilia em sentido rigoroso esteja aqui em causa, mas porque assim se insinua um problema que, apesar de menos trágico, não é menos relevante: o ascendente erótico que o adulto tem sobre a criança ou o adolescente. Dito de outro modo, o facto da sedução intelectual que o adulto exerce sobre o menor se misturar sempre com a complexa maturação sexual que este está a sofrer (numa idade em que ainda não se pode saber que ao sexo o que é do sexo). O que implica que uma realidade intelectual possa ser recebida com toda a força da evidência sensual, provocando uma metamorfose decisiva no espírito pueril. Metamorfose que, aliás, pode ter os melhores ou os piores resultados (por vezes, ambas as coisas indistintas num ser só: é o caso de Hilde).

Interessante também a nebulosidade da culpa que permite passar de um espírito de missão religiosa para uma prática familiar burguesa. Não porque uma seja a causa provada de outra, mas porque talvez seja necessário um mesmo carácter para perseguir duas vocações na aparência tão diversas.

E no fundo, a peça é essencialmente o retrato de um tipo psicológico específico. A tentativa de fazer corresponder a prática da construção à mitologia da Construção leva os dois protagonistas de frustração em frustração até à vontade peregrina de quererem construir castelos no ar. No fundo, a morte de Solness era necessária pois só nesse desenlace se poderia atingir a identidade entre realidade e ideia. Solness e Hilde são ambiciosos. São românticos, intelectuais e hipócritas. Se as personagens de "A gaivota" (de Tchékhov) têm sonhos (necessidades genuínas), as de "O construtor Solness" têm ideias (pretensões). Nina salva-se porque o símbolo-gaivota lhe é imanente; Solness é demasiado sério para saber voar dentro de si mesmo. Enfim, o que Tchékhov sabia da vida, Ibsen (escritor de causas) apenas julgava saber.

Luís Miguel Cintra entendeu todas as cambiantes da sua personagem, desde o background de rudeza até à lubricidade de velho. A Beatriz Batarda é impossível alguém lhe querer mal, e por isso as zonas de sombra da sua Hilde acabaram por passar de mediocridades a bizarrias. Teresa Sobral tem a tristeza marcada no rosto (é uma actriz extraordinária); mas eu talvez tivesse preferido um pouco menos de imobilidade no seu sub-texto (como seria, afinal, o sorriso daquela mulher?).

sábado, outubro 20, 2007

Canto porque

"O que é a eternidade? Haver fósseis de peixes nos Himalaias. "

Luís Quintais

"Som antigo"



(Pintura de Paul Klee)

No escrínio 32

Poema "Nome" de Luís Quintais:


I

Corrigi versos
e a tarde declina
agora
e tudo grita
o teu nome:


II

deflagra o fruto
no chão
do quarto:


III

eu vou arroteando
o cimento
com
aras
de aço:


IV

olhos, os teus.



Luís Quintais é o grande poeta sisudo da minha geração. É o tipo de intelectual que, para falar de amor, precisa de recorrer ao Wittgenstein. Declara-se mesmo avesso a "magias menores, alumbramentos e metamorfoses, actos rituais e fogos de artifício nos longes da alma". A sua dicção é sempre solene. O humor, escasso.

Não poderia ser mais distante do meu universo. E no entanto, a sua poesia toca-me profundamente.

Este enigmático texto aqui apresentado abre o seu sentido com a ideia subtil de "correcção de versos". E de facto, toda a sua estrutura parece querer evocar um esforço de tentativa e erro, no qual o assunto que deveria ser tratado pelo poema (a nomeação da pessoa amada) vai sendo desenvolvido através de propostas que quase se anulam entre si. II corrige I, III corrige II, IV corrige tudo o que está para trás. É certo que, no livro de onde o texto foi extraído ("Canto onde"), está latente a ideia de uma ruptura relacional (e o advento de um novo afecto). Ou seja, uma correcção (não nos é dito se o grito é de exultação ou de dor). No entanto, tudo isso pode ser mero discurso e não ter nenhuma equivalência ao nível da biografia do poeta.

Relevante é aquilo que o poema diz sem parecer que o diz. A começar pelo sentido crepuscular que começa a tocar um indivíduo com quase quarenta anos de idade. Mas também a evocação metafórica do fruto feminino em chamas (Quintais fala muitas vezes dos filhos, com ternura e gravidade). Ou a quase oposta ideia do sacrifício afectivo num altar de aço. Ou ainda a poderosíssima imagem do Homem como um tenaz arroteador do cimento (alguém que, no fundo, tenta tornar fértil o mundo que ele próprio criou). A polissemia do texto resulta do próprio esforço de correcção, que o poeta torna coerente através da continuidade ética entre vida e criação.

Na impossibilidade de individualizar um nome, o que o autor tenta é conferir ao texto a plenitude de um pronome absoluto. Não será casual que o último verso da primeira estância termine como "o teu nome", enquanto que o verso que termina todo o poema já tenha a formulação "olhos, os teus" (com o isolamento sintáctico e morfológico do elemento possessivo). O texto surge, literalmente, no lugar do nome. Ou porque esse nome seja afinal contingente perante a necessidade afectiva-existencial descrita (por outras palavras: a necessidade una e constante de amor faz-nos amar múltiplas pessoas). Ou porque esse nome se mantém secreto (inominável) mesmo quando concretizado. Enfim, continue o leitor a rasgar o sentido que aqui se lhe oferece.

O importante é o plural que o pronome "teu" adquire. Pois plural é toda a experiência poética e vital enunciada. E plurais são os olhos (ao contrário do nome que nos tenta simplificar numa identidade estanque). Olhos que são, claramente, as aras de aço com que o poeta tenta arrotear o cimento.

Nota "Torre Bela"

O documentário de Thomas Harlan tem uma relevância quase assombrosa.

É fácil, para o espectador actual, rir-se do grande ridículo que lhe é apresentado. Mas esse é, francamente, um riso de classe (passe o marxismo), o riso de quem não entende que, naquele momento e perante os dados históricos que se lhes apresentavam, aquelas pessoas só podiam ter dado aquela resposta ao desespero intenso que as tolhia.

A obra é fértil em poderosíssimos retratos (desde o líder espontâneo com ar de galã rural até ao sisudo incapaz de discursar sem falar dos filhos que tem para criar, etc., etc.). Pode servir a quem quiser desenvolver uma sociologia da reunião (que é uma modalidade do absurdo: sabe-o quem já participou em reuniões), ou uma tragicografia da ignorância (o povo nunca se poderia salvar com uma utopia tão sofisticada)...

E podemos lamentar todos aqueles que, em pleno lume político, se comportam com o romantismo artificial de quem leva no peito uma missão (os fdps). E solidarizar-nos com os que nunca esquecem a urgência concreta de uma qualquer agitação revolucionária - como aquela brava senhora que defende o 25 de Abril porque, afinal, este lhe permitiu fazer uma boa colheita de azeitonas.

quarta-feira, outubro 17, 2007

O verdadeiro realista

Eu não tenho de representar a Humanidade tal como ela é. Tenho de representar a Humanidade tal como ela é para mim.



Nota: as duas últimas palavras podem ser substituídas por: 1. em mim, 2. comigo, 3. de mim.

Anna Bach escreve a Spinoza

"Baruch, a montanha também é alta por dentro."

Maria Gabriela Llansol

segunda-feira, outubro 15, 2007

"Bande à part" - dança no café

De três para dois e para um__

Pragmatismo puro

"(...) uma das actividades práticas do silêncio é ter um movimento idêntico ao dos animais (...)"

Maria Gabriela Llansol

"Bande à part" - imagem

O INACTUAL 20

"Bande à part" - Jean-Luc Godard (1964)



A vida é um romance policial de baixa qualidade. Apesar deste filme só ter aproveitado o esqueleto do texto que lhe deu origem, Godard recusou-se a fazer dele um enchido narrativo-psicológico. Por isso, o que circunda o inquieto movimento das personagens (a acção permitida pelo dito esqueleto) é nada mais do que um vazio existencial que as obriga a terem de matar o tempo. Daí a sensação de falta de norte que (des)orienta os diálogos, os momentos de ócio, a suspensão. O minuto de silêncio está latente em toda a obra.

A carne do filme é outra. Exactamente como o trio protagonista decide percorrer o Louvre num tempo recorde, todas as acções mesquinhas e agitadas do argumento decorrem dentro dos impulsos semânticos trazidos pelas outras artes. Dentro da canção (a montagem de música ligeira com música concreta), dentro da escrita (a voz-off fala com estilo literário trabalhado), dentro da pintura (a busca da composição menos estável). São as imaginações que, afinal, conferem sentido à enigmática dança dos humanos.

Assim, num mundo que, contado, ninguém acredita (como sugere a parábola do índio), a grande dificuldade com que os Homens têm de se confrontar é a sua organização em grupo. "Bande à part" relata a difícil passagem da multidão à plenitude. Ou dito por outras palavras: a eliminação do terceiro elemento de um grupo de modo a que possa surgir um par. Eliminação essa que é extremamente violenta, e que só pode ser figurada pela presença-limite da morte (como em "The big sleep", de Howard Hawks). Assim, a actualização de "Romeo and Juliet" não se faz dando uma identidade modernaça aos Montéquios e aos Capuletos, mas investigando o que é que, no mundo contemporâneo, conforma um impedimento ao amor. E que é, paradoxalmente, a própria libertação do amor.

Curiosamente, numa outra parábola Godard parece querer afirmar que, mesmo após a sua queda, mesmo após o mergulho na dor, o indivíduo continua a não ter noção de quem é. Por isso, entre o lied da infelicidade colectiva que Anna Karina entoa no metropolitano (o centro da terra) e as múltiplas formas de escape pelo gozo sugeridas pelo enredo (como a sonhada corrida de carros em Indianápolis), Godard parece fazer finca-pé ético na individualização plena dos seus actores/personagens. Com pinceladas rápidas, só esboçadas mas vitais, o autor transmite-nos a intensa humanidade de uma rapariga romântica, de um solitário culto, de um violento sensual. De três para dois e para um - todo o conflito das relações humanas.

Mas tudo muito rápido: os grandes cineastas são os que filmam mais depressa ou mais devagar do que a norma.

Meet me (don't meet me)

O revolucionário: é-o ao nível do discurso. De resto, actua sempre por traição.
O reaccionário: é-o ao nível do discurso. De resto, actua sempre com hipocrisia.

Não gostaria de que algumas coisas mudassem - fico angustiado quando mudam.
Gostaria de que algumas coisas mudassem - fico angustiado quando não mudam.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Crónica do voo

Nenhum homem é capaz de voo.

No entanto, se a faculdade do canto é teoricamente universal, a verdade é que a prática desse dom ornitológico contribui de modo particularmente intenso para a infinita variedade com que o humano se conjuga.

Seria a nossa vida mais justa se o negócio com os pássaros tivesse sido o oposto? Se a música vocal nos estivesse vedada e o voo fosse a forma comum de levar vibração ao desejo de sentido?

Desde logo, a nossa carência seria bem menos física. Afinal, o que projectamos no canto é algo que se pode tornar absolutamente independente de nós (o som). Se nunca tivéssemos sabido cantar, essa falta pesar-nos-ia tão pouco quanto hoje nos pesa o desconhecimento de um sexto sentido.

Já a carência do voo nos dói mais. É que a perícia alada não só produz vibração emocional como também transporta o corpo de lugar para lugar com liberdade e velocidade excepcionais. O que projectamos no voo? Nós-mesmos. Cabalmente.

Mas se pudéssemos voar, voaríamos todos de formas diversas. Desde logo, é certo que haveria mudos. Gente que, por uma terrível maldição patológica, não saberia dar uso às suas asas. Teriam de voar através de estranhos aparelhos artificiais. E isso talvez fosse bom: os aviões seriam análogos a um código gestual, encheriam o ar com mais enigmas do que ameaças.

Haveria roucos, claro: voadores menos perfeitos, mas nem por isso menos sensuais. Frequentariam consultas regulares de médicos cuja especialidade teria um nome maior do que otorrinolaringologia.

Não nos livraríamos dos artistas. Sopranos, contraltos, tenores e baixos encheriam os céus com as suas idiossincrasias capazes de coreografia coral. Haendel, Bach ou Luigi Nono abandonariam as pautas para se tornarem peritos numa notação bem mais pictórica. Uma mulher voaria demasiado perto do limite da atmosfera: chamar-se-ia Callas. Um homem seria capaz de exorcizar a terra no céu: chamar-se-ia Bob Dylan. Planadores carismáticos, Bogart e Bacall ter-se-iam encontrado num ecrã um pouco menos imaterial. Hitchcock filmaria o ataque de juke-boxes. Grandes virtuosos entreteriam o planeta ora em AM ora em FM.

No grito, perder-se-iam penas literais.

O bebé confirmaria a sua vida num pequeno golpe de asa.

Então, eu escreveria uma crónica nostálgica do canto.



(Imagem de Quint Buchholz)