quarta-feira, dezembro 13, 2006

Quixotismos

"Dom Quixote de la Mancha" - Capítulo XVIII

Ao contrário do que acontece, por exemplo, em "As mil e uma noites", no livro de Cervantes uma nuvem de poeira não revela o bravo e mítico exército com que sonha D. Quixote, mas um rebanho tão mero que nem ovelhas negras deve ter. O autor desconstrói lugares-comuns.

E assim, aproveita logo para, como quem não quer a coisa, dizer das suas:

- A religião não é mais do que um assunto de carneiros (Quixote imagina que os rebanhos são dois exércitos guerreando por desavenças de fé).

- É o medo que nos impede de viver mais na imaginação do que no real (é a tese de Quixote, que revela não só uma poética visionária da sensação, mas também uma metafísica: o Bem é a coragem da deformação).

- D. Quixote, no fundo, é um homem da palavra, um efabulador literário (Sancho diz que seu amo dava para pregador, pois ele sabe dizer melhor do que fazer).

- Tal é o gosto de Quixote em esmiuçar o seu imaginário, que o uso que ele faz da enumeração (inventando um famoso cavaleiro para cada ovelhinha que por ali se tresmalha) é um acto supremo de prazer. Quixote é mau poeta no sentido técnico, mas demasiado poeta no sentido existencial.

O autor não aceita menos do que criar os seus próprios lugares-comuns. O seu dizer é fazer.



Sem comentários: