quinta-feira, dezembro 07, 2006

Partilha 6

(O seguinte fragmento faz parte da minha novela não publicada "O ofício de habitar personagens". Como em princípio o irei retirar do texto final na medida em que ele não se insere bem no ritmo geral da escrita, deixo-o aqui partilhado. É o momento em que a personagem principal, Benjamim, assume a rotina de um trabalho de café.)
"Mas como ninguém navega para as Índias Espirituais sem recorrer ao modem da realidade, Benjamim desceu à terra – este mar era étagée là-haut comme sur les gravures. A rotina não tem muito que se lhe diga, mas tem bastante que se lhe faça. A máquina do Cimbalino, complicada como uma comédia isabelina, pedindo instruções muito precisas para construir o sabor do café, do descafeinado, do mero carioca; ou a torradeira que já nasceu velha, e que tenta mitigar as rugas que apertam o pão com delicados cremes de manteiga; os boiões de guloseimas, trazidos de Arábias do passado pelos dromedários da mitologia; a prisão dos criminosos maços de cigarros, esporadicamente libertos pela amnistia de alguém que não tem medo da vida; as passerelles de pastéis, imponderáveis notícias para a fome cor-de-rosa; o glaciar de garrafas, império dos sentidos a ser bebido com degelo… Todas estas coisas, que aqui dizemos com graça porque não sabemos escrever de nenhum outro modo, dão muito trabalho. Um trabalho mecânico, redutor, que só pode ser feito com alegria se a alegria já pertencer ao programa do trabalhador – contingências de robótica."

2 comentários:

Amet disse...

Isto não pode/deve ser cortado. Ritmo é eficácia. Que se lixe a eficácia (método calculista) na Arte (não-método incalculável).

pedroludgero disse...

André,
Presumo que haja um elogio implícito neste comentário, o que agradeço. Eu postei o fragmento porque precisamente me parece conseguido, e não gostava de o "deitar fora". Não sei se o ritmo é mera questão de eficácia, ou se terá implicações mais fundas. Enfim, lixaste-me, porque vou ter de pensar mais de duas vezes...

Abraço