terça-feira, dezembro 05, 2006

O INACTUAL 7

"Viaggio in Italia" - R. Rossellini (1953)

Rossellini descarna as duas pulsões que sempre acompanharam o seu cinema (a ficção e o documentário) de modo a que elas possam conviver como um casal sem ilusões. Assim, "Viaggio in Italia" pouco mais capta do que a influência do real sobre duas personagens imaginárias (um casal em viagem por aquele país, descobrindo a fragilidade da sua relação). Mas mesmo essas personagens parecem sucedâneos do autor e da sua verdadeira mulher na altura (Ingrid Bergman), de tal modo o filme se apresenta doméstico (Rossellini parece ter filmado apenas para dizer à companheira que, apesar de tudo, ainda a amava). Filme barato, avesso à qualidade (literária, técnica, plástica), pessoalíssimo, ao mesmo tempo desequilibrado pela presença dos famosos actores (Bergman e George Sanders), belos, snobs, estelares, dois mitos caminhando por entre os simples, na paisagem.

Disponível para a preguiça e até para o humor, o filme constrói os seus dois retratos a partir da digressão das personagens. O marido aproxima-se de várias mulheres (diz-se que a virilidade está mais sujeita aos imperativos do corpo). Em contrapartida, a personagem de Ingrid Bergman segue a influência espiritual de um homem do seu passado (um suposto poeta), e por isso percorre, não outros homens, mas as sugestões de um poema que traz decorado. Os guias que ela encontra nos seus passeios não passam de caricaturas masculinas, pois ela está em busca de uma alma. Homem e mulher divididos porque ele procura o real na ficção, e ela a ficção no real?

Quando o dois encontram os cadáveres de um casal morto nas famosas erupções de Pompeia, vêem-se a si mesmos mortos no seu amor. Ou porque o sentimento se está de facto a extinguir, ou porque o desejo final de todos os amantes é a comoriência - o espelho é ambíguo. Ambíguo também o fim: terá Deus metido uma colher benéfica entre aqueles amantes, ou será a religião um cinema tão forte que consegue convocar todos os mistérios da vitalidade, do amor, e da morte? É irrelevante ser ou não ser ateu. O que importa é como se crê no mundo.

Perversamente, Rossellini filma (o seu país, o seu argumento, a religião, o amor, Ingrid Bergman, ele mesmo) como um estrangeiro. Daí a sensação de desconforto ideológico que sentem todos os que o querem catalogar. Lega-nos o mistério como ética de vida, e um conjunto de imagens nuas sobre o mais belo dos países: uma Itália palradora, fértil, sonolenta, crente, e indiferente a toda a cortesia.

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