domingo, dezembro 10, 2006

No plateau 5

Jean-Look Spiell Bergman pôde finalmente materializar um projecto acarinhado desde o início do seu trabalho criativo. O filme chamava-se "L'Atalante - remake líquido", e consistia na reencenação dessa obra-prima, tomando como pressuposto a acentuação do papel que a água teve tanto na narrativa como na mise en scène de Jean Vigo.
Na cena pungente em que o marido procura, como um louco, a mulher desaparecida para as seduções da grande cidade, Jean-Look tinha decidido encenar a acção com referência a um elemento forte como a chuva. Não só porque a chuva só pode ser filmada na sua relação com a luz (o que lhe parecia atender ào estado de dupla condição espectral da personagem feminina e da ontologia cinematográfica nesse momento da narrativa), mas também porque as superfícies chovidas estão condenadas a tornarem-se espelhos que são sempre mágicos devido à sua intensidade.
A sequência revelou-se menos complexa do que se supunha. O ecrã negro (anoitecido) começava por estar habitado pelo som reconhecível de uma forte chuvada. Por vezes, uma explosão de luz (um relâmpago, a luz da montra de uma loja, um candeeiro) revelava a deriva ansiosa do sucessor de Jean Dasté através da grelha inconstante da precipitação. Por fim, a chuva cessava, e no chão urbano molhado, surgiria a imagem-fantasma mulher vestida de noiva.
O que atormentava Jean-Look era um problema técnico. Deveria ele criar esse reflexo-citação recorrendo ao processo antiquíssimo da transparência, subjugando o plateau a truques virtuosos de encenação, ou facilitando um efeito digital? Ou seja: passado, presente, ou futuro?
Jean-Look acabou por decidir fazer a projecção do filme de Vigo no ecrã de água. Por coerência com os assuntos que pretendia tratar.

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