quarta-feira, dezembro 20, 2006

No escrínio 12

Poema “Matéria orgânica a distância astronómica” de Vitorino Nemésio:


Ó alma da manhã fosforilada
Na crusta daquele pobre caranguejo
Que, apesar de mexer numa pedra azulada
Debaixo da água, na ilha ao longe, eu ainda vejo:
Abres-te a céus de metano e amónia,
A mais de dois biliões de anos biológicos,
Mas és tão nova ao coração maníaco
Do poeta!
Agora mesmo intacta vieste aos sons ilógicos,
Como uma seta.

Ó coração das lavas, vítreo no céu da noite,
Imitando a claridade racional
Desta angústia de velho ausente das suas pedras,
Com caranguejos de sangue imaginários nos olhos,
Cascas de dores reais cravadas na sua alma,
Palavras loucas silicadas no seu lápis
E no bafo expelido ao coração das faias velhas.

Mas eu falava…? Ah, da manhã com fósforo de mar e olivina das Ilhas,
Apertada ao meu peito, que a perdi,
A milhões de anos-luz para o marciano emigrado
Nalguma galáxia afastada
Quer de Marte quer de mim (que lembro o caranguejo),
Das cinzas de meu Pai, azoto que não vejo,
E até – meu Deus que chamo e não oiço – de Ti.


O poeta lamenta a distância cronológica e emocional de uma suposta recordação de infância (a visão de um caranguejo na água do mar). No entanto, como a infância é aqui identificada com a manhã de uma vida, o autor faz com que esse caranguejo se confunda com o sol. Veja-se: é no sol que a manhã fosforila a sua alma (que a torna incandescente). O próprio caranguejo, avermelhado, está rodeado por patas que fazem lembrar o desenho infantil dos raios de um astro de luz. E a manhã está apertada ao peito do poeta como se tivesse tenazes para nele se prender.

O lirismo de Nemésio é tão contagiante que ele não se contenta com os limites desta metáfora. O poeta tem caranguejos de sangue nos olhos: traço comum nos velhos. Mas logo a seguir, ele fala de cascas de dores reais, querendo talvez assim assumir que esta dor chamada memória pertence ao mundo dos sentimentos imaginários (aqueles que, por poesia, inventamos), e não deriva de uma contrariedade efectiva.

E a insistência no coração? Não será o caranguejo aquilo que bate sob a crusta que a idade do poeta lhe proporcionou?

Estando assim tão carregada semanticamente, é natural que a imagem do caranguejo não esteja perdida na distância de seis ou sete décadas de vida, mas a milhões de (míticos) anos-luz. O frankenpoema faz da sua matéria um monstro.

A emoção do texto balança, portanto, entre tempo verdadeiro e tempo lendário. O pai do poeta é maiusculizado como se fosse Deus, mas logo a seguir é reduzido ao azoto em que se desfez. E a segunda estância parece estar a falar da lua (o coração vítreo no céu da noite), que traz uma angústia biográfica contrastante com a restante inquietação essencialmente metafísica.

E quem é este marciano (mar ciano)? Será Nemésio enquanto poeta (enquanto extra-terrestre existencial) emigrado dos seus Açores natais? Ou será o leitor, sempre estranho ao escritor distante?

Enfim: a saudade e a distância da recordação são tais, que até de Deus esta se afastou.

Noutro poema do mesmo livro, Nemésio fala ainda da constelação de Câncer, e da palavra brasileira para designar cancro. Seria o autor do signo caranguejo? Teria uma doença oncológica? Especulações pouco importantes, pois o que releva é a alma da manhã fosforilada.

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