sexta-feira, dezembro 01, 2006

No escrínio 11

Poema de Hildegarda de Bingen traduzido por J. Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça:


De Santa Maria
Responsório

Ó como preciosa é
a virgindade desta Virgem,
que tem fechada a porta,
e cujas entranhas a santa Divindade
com seu calor inundou,
assim que nela cresceu a flor,
e o Filho de Deus
no secreto mistério dela
aurora resplandeceu.

Por isso o doce gérmen, seu próprio Filho,
através da clausura do seu ventre
o paraíso abriu.
E o Filho de Deus
no secreto mistério dela
aurora resplandeceu.
Confesso que isto de colocar latim na internet me dá um certo gozo. Se tudo aqui é suposto ser navegabilidade, quando uma língua morta é apanhada na teia virtual, não podemos deixar de imaginar que a blogosfera fica habitada por espectros de um mundo que já não ou ainda não é nosso. Um manjar estranho para a aranha da comunicação.
Hildegarda de Bingen foi abadessa, ganda maluca (há quem diga mística), escritora, compositora, pintora, acima de tudo mulher famosa e influente num século XII avesso a tais feminismos.
Há algum tempo atrás, a Assírio e Alvim publicou um livrinho com parte da sua produção poética. A primeira ideia que o livro me deixou é que Hildegarda era bastante obcecada com a ideia de virgindade (quase todos os textos mais fortes rodam em torno deste assunto). Como não conheço biografias da senhora (e desconfio que a Idade Média só poderá ser de facto conhecida após a invenção da Máquina do Tempo), aceito todo o tipo de opinião sobre tão irrisório tema. Faites vos jeux. Podemos dizer que tudo isto é uma farsa (Hildegarda foi mulher poderosa numa instituição poderosa). Podemos ser mais prosaicos e acusar a casta poeta de ser apenas doida varrida. Podemos entendê-la como funcionária do poema, trabalhando em torno do mito como o fazem todos os que se inscrevem em tal profissão de fé. Haverá umas senhoras provocadoras que falarão de lesbianismo (o voto de castidade também pode ter orientação sexual...). Mas ninguém deve colocar de parte a hipótese da abadessa poder ser um indivíduo excepcional. Em Deus não acredito eu, e por isso os supostos santos me parecem mais personagens do que humanos seres.
Seja como for, nada me impede de fazer uma leitura profana desta poesia tão serenante (apesar de não serena). É o meu responsório ateu.
Nos vários poemas sobre a virgindade (o texto transcrito é um mero exemplo), a condição da mulher pura é sempre misturada com a adoração do Sol. Num dos seus momentos mais magníficos, Nossa Senhora é comparada ao astro-rei, enquanto Deus, mera águia (violento, portanto), a contempla com intelectual desejo. Mais: bastou que o Criador concebesse o projecto de uma virgem para resolver o problema do despacho de seu Filho para a Terra, para que uma flor brilhante nascesse em Maria quase à revelia desse mesmo Criador (como se Ele tivesse um inconsciente criativo que afinal dirigisse o seu impulso só na aparência omnipotente). Noutro texto, Maria cria raiz no astro solar, e enquanto este lhe fornece a perfeição da circunferência e o abraço dos mistérios divinos (compreende-a nos vários sentidos de que a Terra não é capaz), é ela quem brilha. E brilha serena e fresca, como se a estrela devesse mais à estilização da pintura do que à verdade científica.
O que Deus traz à Virgem é o calor. E ela limita-se a expulsar de si mesma uma flor brilhante, uma flor de luz (Cristo resplandecendo a aurora). Daqui se tiram várias conclusões. Por um lado, o convivío com o Sol (com a luz) exige uma espécie de virgindade radical da nossa parte (lirismo puro, sem peso religioso: arte de vida). Por outro lado, o acto de parir está desde sempre equiparado à ideia de dar à luz.
Por fim, aquilo que ouço da voz distante de Hildegarda é que a mulher só é virgem no momento do parto. O que acontece antes ou depois é assunto de outra poesia (onde o sexo existe sem taras). Aqui sublinha-se, com paixão, a absoluta esperança que o nascimento de cada nova criança implica. E se alguma beleza há na história da carochinha da concepção sem pecado da Virgem Maria, é esta vontade utópica de que essa constante virgindade, esse estado perene de esperança, se possa estender para trás e para diante do momento do parto. Coisa impossível, já se sabe. Há mais noite do que estrelas no Universo.

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