sábado, dezembro 23, 2006

Impureza

Nenhum filme pertence a um género único. E nenhum filme é alheio à questão dos géneros. Simplesmente, uma obra pode padecer do excesso de um género específico, enquanto outra cultiva o defeito de todos. E claro, há muitas situações intermédias.

Assim, um film noir pode ter uma componente de comédia superior à dimensão policial ("The big sleep" de Hawks), uma comédia pode ter menos humor do que pintura ("Une femme est une femme" de Godard), a ficção científica cede por vezes à filosofia ("Stalker" de Tarkovsky), outras vezes à poesia ("Alphaville" de Godard), a evocação pictórica descamba em romanesco ("Une partie de campagne" de Renoir), o ensaio impõe-se ao western ("The man who shot Liberty Valance" de John Ford), pode o teatro ser uma canção ("La ronde" de Max Ophüls), uma reconstituição ser um documentário ("Van Gogh" de Pialat), um exercício de autor revelar-se policial sem solução ("Otto e mezzo" de Fellini).

Podemos pegar num filme, e tentar definir a quantidade e a qualidade da influência de todos os géneros que nele co-existem. "Amor de perdição" de Oliveira: destrinçar o romanesco do teatral, da tragédia, da comédia, do policial, da reconstituição de época, da elaboração plástica, da metafísica, do documento, do canto, da arquitectura, da física, da crítica, de....

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