quarta-feira, dezembro 13, 2006

Dicionário 4

Indo pois, desta maneira, na noite escura, o escudeiro com fome e o amo com vontade de comer...
("Don Quixote de la Mancha", de Miguel de Cervantes, tradução de Serras Pereira: também Miguel)

Defendi, há alguns posts atrás, a impossibilidade de sinonímia, dado o afecto com que nós sobrecarregamos cada palavra. Afecto que modelamos nos usos sociais, na nossa biografia, na relação com a cultura, e que pode chegar a deformar o próprio campo semântico de um termo ou expressão: uma triste figura é digna da nossa compaixão, mas uma figura melancólica tem é compaixão (filosófica) por nós.

Cervantes demonstra-nos que por trás de uma formulação existe, mais até do que um sentido de classe social (a fome de Quixote precisa de mais palavreado e assume menos a sua pungência), um pressuposto de PERSONAGEM. Cada palavra comporta, a partir do trampolim do dicionário, um indício de romanesco que só precisa de um autor que o faça equivaler a um ente de carne-tinta e osso-celulose.

Propõe-se aqui um breve repasto ficcional em torno da palavra fome (não há ausência de método que não dê em escrita criativa). Para cada sinónimo, proponho um personagem indefinido ou ainda mais.

FOME - Quem assim a verbaliza é um trintão de classe média, homem entediante sem interesses literários nem ouvido para o discurso alheio, talvez com ambição de ser notário. Usa a palavra quando está mesmo aflito, e declama-a como se estivesse a dizer um palavrão. Ao filho, ensina-o a tratar o sexo por pénis. Guia um carro com motor alemão.

APETITE - Verbo de eleição de um jovem cravista que odeia a música do século XIX. Lê "O Tripeiro", frequenta meios religiosos para engatar seminaristas, toma duche mais do que uma vez ao dia, e é incapaz de provar sushi. Viagem de sonho: o Peloponeso (?).

AVIDEZ - Pobre frustrado: o que este queria era ser escritor, e nunca tomou consciência disso. É um bom garfo, e tem o paladar tão requintado que, se fosse provador de imperador romano, morreria a tentar definir as minudências do sabor do veneno. Está sempre desempregado, nunca se sabe muito bem porquê. Namora exclusivamente mulheres estrangeiras.

LARICA - Palavra exibida por um vendedor de sapatos que tem a mania que é marialva e que gosta das coisas do povo. É frequentemente convidado para apresentar Concursos de Miss Vestido de Chita. Há anos que usa as pastilhas azuis. Há anos que usa patilhas (independentemente das modas).

SOFREGUIDÃO - A única senhora do grupo. É obesa e sabe porquê. Mesmo assim, arranja namorados esculturais, e vive mais de noite que de dia. Há quem desconfie da virilidade de tais moços, mas não faz mal: ela precisa demasiado de viver para se preocupar com pormenores. Depois do pós-doc sobre a pós-modernidade nos hábitos alimentares, quer fazer parte de uma missão na África subsariana. Nunca regressa de lado nenhum.


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