domingo, dezembro 03, 2006

De bestas a bestiais

Espinosa dizia que, para um Homem, aquilo que mais lhe podia assegurar a conservação e a alegria era o interesse por outro Homem.

Por outro lado, ninguém respeita a Natureza se a tratar com uma piedade que ofenderia a própria Natureza. Como se diz aqui, há algo de ridículo na moda vegetariana.

No entanto, se as pessoas sensíveis não fazem mal às galinhas mas cometem atrocidades no relacionamento com outros humanos, o facto é que há quem faça mal à galinha e à vizinha, e quem tenha pingos de decência para oferecer a todos os vivos do planeta. Esta coisa de nas touradas se respeitarem os touros, ainda me deixa um pouco perplexo.

Se somos mais história que natureza (como dizia o Ortega), qualquer uma daquelas duas pulsões nos fez carnívoros, pastores, cavaleiros, dominadores da Terra. E ainda não conhecemos nada no Universo que a nós se compare em grandeza e mesquinhez. Mas penso que não é preciso exagerar. Podemos continuar a dessacralizar as vacas entre os nossos dentes sem que isso nos impeça um mínimo de ética animal.

Sentir-me-ia melhor como Homem (inclusive, como Homem espinosano), se pudesse ver os animais a viverem com um pouco de ar fresco, com a possibilidade de darem umas corridas, umas fodas, e de executarem um pouco do seu instinto (da sua Natureza).

A carne pesa-se ao quilo. A vida mede-se em dignidade.


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