quarta-feira, dezembro 20, 2006

Crónica do ovo

Três fragmentos do livro inacabado “Branco é”, da autoria de William Black (tradução de Richard Nadir).


1. No princípio, foi o big bang (três dias). Então, o Demiurgo considerou três hipóteses. Espalhar a matéria primeira segundo o acaso da expressão (uma ética de espuma). Trabalhá-la até ser obra divisível apenas por si mesma (uma imanência do recheio). Deixá-la ferver no tempo até o tempo a estrelar (uma poética da criatura). Ao sexto dia, o Demiurgo escolheu a terceira hipótese (e assim ficámos a saber tudo sobre nós).

No dia seguinte, Ele foi contemplar a Obra de Ninguém: e viu que o Mar tudo acolhia.


2. O demiurgo lançou nove ovos em torno de si mesmo. Pensou que fossem novos por definição. Mas o resultado foi mais chocante: de cada eu, nasceu uma ptolomave. Foi preciso que, na Galileia, alguém nascesse urbi e morresse orbi, para que o Sistema se tornasse mais solar. Mais suave.


3. De vez em quando, as crianças abrem vulcões na crusta do ovo, e deles saem claras lavas que parecem inócuas. Algum tempo depois, a Terra é pintada numa (meno)pausa de cores ingénuas. A ressurreição do ventre feminino dá-se quando ele se torna tão fino que as suas costuras (em ponto de cruz) já só querem rebentar. A gema do vazio é doce e inconsútil. No fim dos Tempos, o universo será Mar.

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