terça-feira, novembro 07, 2006

Vícios Imorais

Ontem tive a possibilidade de ver o documentário extremamente justo sobre o poeta Vinicius de Moraes.
A uma dada altura, fala-se do facto de a crítica ter considerado, em tempos, que Vinicius era um poeta menor. E conta-se que João Cabral de Melo Neto lamentava que aquele não fizesse poesia a sério, pois se fosse possível fundir o talento de Vinicius com a disciplina de Melo Neto, o Brasil teria, finalmente, um grande poeta.
Na minha imodesta opinião, a poesia de Vinicus, quando considerada em si mesma, é de facto um pouco frágil (pouca inventividade, tendência para o lugar-comum). Como compará-lo com Drummond de Andrade? Mas parar o nosso julgamento aqui, seria não compreender o legado do autor. Pois a escrita de Vinicius só existe enquanto condenação à música, seja a música de Tom Jobim ou Baden Powell, ou as magníficas melodias que o próprio poeta inventou. E quando esta escrita de súbito se vê fundida na magia da bossa nova, ganha uma nobreza inesperada, um poder de contágio dilacerante, e já não conseguiríamos ler aqueles versos sem os sons que com eles cantam, nem suportaríamos aquela música com outro tipo de letra que não fosse aquela.
Ainda para mais, Vinicius foi um personagem magnífico (daqueles que todos sonhamos conhecer), e foi o elemento fundamental na criação de uma dinâmica para a música popular brasileira. Foi um trovador. Celebrou uma visão da vida tão genuína quanto simples. Que mais é preciso?
E que bom ver todos aqueles cantores e compositores a falar, gente que sabe que fez (faz) coisas muito relevantes, mas que o assume sem falsa modéstia nem insegurança arrogante. Ainda por cima, parece-me não ter ouvido a palavra máaráavilhoso uma única vez...
Agora, isso de Melo Neto não se achar um grande poeta, é caso para dizer: cê não se enxerga mesmo!

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