quarta-feira, novembro 29, 2006

Tradução

As ideias surgem-nos por via dos erros, dos acasos, das liberdades. Da traição.
Nas traduções do "D.Quixote de la Mancha" que saíram recentemente em Portugal, para a palavra de Cervantes que José Bento mudou para minúcia, Miguel Serras Pereira encontrou o termo (talvez) mais arcaico de pontualidade. Ambos se referem à capacidade que um narrador tem de descrever o detalhe de cada episódio de um romance.
Se na versão de Bento percebemos logo o sentido da frase, o facto é que Serras Pereira consegue fazer-nos cismar.
Pois não será o detalhe a forma do mundo nos aparecer pontual? A nossa percepção é retardada ou acelerada pelo abismo que existe entre a subjectividade e a amplidão (espácio-temporal) do real. Mas quando o detalhe se nos impõe, o tempo do mundo torna-se mais exacto, parece equivaler aos nossos processos mentais, a respiração atinge o seu ponto óptimo.
O pequeno risco na chávena de café não espera por mim, nem eu por ele. O mesmo não posso dizer das diversas concepções de café.

1 comentário:

Hugo Alves disse...

Traduttore, tradittore, como se diz em Itália :-)