sábado, novembro 25, 2006

Serviço de várias majestades

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No exercício da minha escrita poética, muitas vezes a vontade de retirar uma determinada ideia de um texto corresponde à vontade de lhe aperfeiçoar o ritmo através da excisão do verso (ou pedaço de verso) que continha essa ideia. Fico sem saber se a ideia me parece espúria por razões rítmicas, ou se o andamento do poema me parece desajeitado devido a excessivos estímulos semânticos. É a história do ovo e da galinha. Não é que eu saiba exactamente quais os termos que se entre-correspondem nesta metáfora, mas era capaz de apostar que quem faz as semi-colcheias é a ave, e que o ovo tem arrojo de Colombo.
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Alguns actores queixam-se da mediocridade profissional dos realizadores mais famosos com quem trabalharam. O caso que mais me choca é o de Howard Hawks, cineasta que os próprios americanos adoram ridicularizar quando aludem à sua suposta incompetência na liderança de um plateau. Mas a vida não é justa. Os cineastas que interessam são aqueles que têm um universo na cabeça, e que o transpõem para a tela de forma convincente e coerente. Que X saiba dirigir muito bem os actores? Que Y seja um ás na montagem? Que Z tenha bom olho fotográfico? De que adiantam esses dons, quando não se tem nada para dizer, ou se o que se tem a dizer é idiota e não interessa a ninguém? Hawks talvez não fosse o mais evidente dos profissionais, mas era um autor. Lírico em "Only angels have wings", jubiloso em "His girl Friday", épico em "Red river", aparentemente sereno em "Rio Bravo", etc. Claro que há casos como os de Welles: poeta, pensador, actor, artista, técnico. Mas o cinema não depende só dos génios. Cinema é a diversidade da imaginação.
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Quando alguém afirma que a realidade é apenas mais uma convenção, fico logo armado em Sancho Pança. Então que me dizem da fome, da dor de barriga, do frio, do orgasmo, da conversa, do salário, das cidades, do gato, da chuva? Que haja mais mundos para além deste onde somos obrigados a sofrer, concordo. Que esses mundos até possam ser mais satisfatórios, também percebo. Mas não me venham com tretas: a realidade é a convenção que mais nos ocupa (tanto em quantidade como em qualidade).
(A espionagem nos assuntos que apaixonam o espião segue dentro de momentos)

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