quarta-feira, novembro 29, 2006

Pragmática Cervantina

Prossegue a leitura da obra-prima de Cervantes.
No episódio do confronto com um bando de iangueses, o intrépido D. Quixote leva no corpo como gente grande (e magra, no seu caso), mas logo minimiza a desventura quando se lembra que os cavaleiros andantes que lhe servem de modelo também passaram por iguais sucedidos, naquilo que parece ser um mero retardo (inspirado nos martírios cristãos) na progressão indiscutível até a uma suposta glória. Coisa que o Rambo e seus afins também terão sentido, assim como todos aqueles que precisam da grande morte para se aviarem com as pequenas mortes de 70 virgens (mais coisa, menos coisa).
Ou seja, o cavaleiro da triste figura minimiza a dor física, porque esta lhe aparece legitimada pela dor mítica que os romances lhe ensinaram. Assim, por um desvio da herança platónica, a exemplaridade moral do sofrimento parece transformar Quixote num faquir que a realidade não consegue magoar.
Durante algum tempo, pensei que o mundo árabe (não estou a generalizar que já sei que por lá há gente inteligente, decente, e amargurada) precisava de um Voltaire. Mas Cervantes parece-me segredar ao ouvido que não é nada disso. O que é preciso é um Sancho Pança. É preciso que, no capítulo da dor, desapareça toda e qualquer satisfação imaginária. E que eles tenham é medo. Muito medo da dor. E que sejam suficiente medíocres para se estarem a borrifar para a seriedade, para o quixotismo do heroísmo.

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