quinta-feira, novembro 02, 2006

Partilha 5

Um micro-conto:

Homem de muitos recursos, bastara-lhe um fio achado por acaso para ele fazer a sua cítara. A essência da corda não é a sua matéria, mas a tensão que a estica e lhe retira consequências. Os enforcados sabem-no. E, no entanto, muitas vezes ele cantava a velha história de um condenado à corda, que não se importava de morrer desde que o deixassem escolher o último material a fazer amor com o seu corpo.
O tocador de cítara percorria as ruas estreitas de Veneza, sempre à espera de achar o Inferno ao virar da esquina. Contavam os seus antepassados que a entrada para o Além tinha o tamanho do buraco de uma agulha, e que por ela passavam camelos, mas não dromedários. Pois os Homens morrem melhor quando são indecisos na sua reserva.
Monomaníaco, o cantor ainda não estava pronto para deixar a vida. Mas tinha perdido a sua maior riqueza: a amada tinha regressado ao baú das sombras sem que isso tivesse sido previsto no mapa profético da sua vida. Por isso ele se recusava a contemplar as suas mãos inúteis, e as submetia à acção da cítara, esperando encantar a ilha que o acolhia.
Enquanto não abria a porta que lhe permitiria ir buscar a morta como se a vida fosse apenas uma forma de despojo, ele vagueava pela bela cidade, cidade de infinitas significações. Corriam boatos de que ele domava feras. Não havia leão, touro, ou serpente, que sob a sua música não se amansasse em forma de signo. Mas essa astrologia efémera, que constantemente reclamava que fosse accionada a corda da inspiração, não se aplicava a todos os animais. Os pássaros, os gatos, as sardaniscas, já tinham a paz de quem não se deixa constelar. A música era-lhes tão estranha como o silêncio era indecifrável pelo cão Cérbero. E era precisamente este, o monstro que ele tinha de adormecer, para poder entrar no país do sono sem sentido.
Talvez não fosse verdade, mas dizia-se que até as pedras se moviam perante os acordes que a mágica cítara fazia soar. Aliás, ele caminhava sempre por ruas diferentes, não porque estivesse perdido, mas para não incomodar a serenidade da arquitectura veneziana. Porventura pensava que só por hábito podem as pedras chorar.
Os anos passaram. O Inferno nunca se lhe revelou. Ele colocou a hipótese de dar um uso mais radical ao cordame da sua cítara. E bastou essa hesitação para o pôr mais próximo da Praça da Morte. Mas a ironia do destino é feita com a cera de Dédalo, não com a de Ícaro.
E assim ele continuou, vadio perdido numa cidade feita à sua medida. Talvez Veneza não o quisesse libertar porque uma gaiola só é bela quando expõe um sofrimento. Ele chegou a pensar que se tinha fundido com a sua lira, e que nunca entraria no Inferno porque a música aí forma a água do Rio Letes. Havia mesmo quem lhe chamasse a Ave-do-Paraíso.
Mas ele chamava-se apenas Teseu.
(Micro-conto pertencente ao projecto "Cadernos de Xochimilco", livro que não sei se alguma vez me vai apetecer concluir)

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