quinta-feira, novembro 09, 2006

O INACTUAL 6

"Cinco" - Abbas Kiarostami (2003)

Sobre este seu filme, documentário que não se distingue do poema, Kiarostami revelou que a estratégia que adoptou foi a redução da sua intervenção (a realização) quase até ao valor zero. Curiosamente, o resultado não podia ser mais distante do aleatório, do caótico, ou do vazio. Dada a sua raridade, cada gesto criativo adquire uma inesgotável ressonância de sentido, assim como uma autoridade expressiva que renova, de facto, o legado que pretende homenagear (o cinema de Yasujiro Ozu).
Lemos o filme plano a plano.
1. O primeiro plano parece ser, ainda, uma espécie de prólogo (o assunto é um mero tronco). Apresenta-se o problema que o filme vai debater: a relação entre as forças da criação (neste caso, a tirania do enquadramento) e as potências da vida (aqui metaforizadas na improvisação do mar). O mar parte um tronco em duas partes. Uma das partes começa a andar à deriva devido à agitação das ondas. De repente, o tronco sai para fora de campo - o cinema tornou-o invisível. Depois aparece noutra região da imagem, apenas para desaparecer no mar - a vida tornou-o invisível. Mar e câmara trabalham em conjunto para encenar, mas o desaparecimento na vida é mais radical que o desaparecimento no cinema. Por enquanto?
2. O segundo plano, o mais próximo do típico cinema do autor iraniano, é um haiku de infinita ambição. Na orla marítima, o movimento das pessoas faz lembrar o movimento errático mas cíclico das ondas no plano anterior. Os homens são levados pela vida como o tronco era levado pelo oceano. Algumas pessoas descem para a praia, e entram numa zona de ocultação. Ao fim de algum tempo, quatro indivíduos param para conversar. Espontaneamente, forma-se uma comunidade humana. Frágil, breve, parcialmente derivada do acaso. É uma lição de História (Kiarostami é um aparente pedagogo).
3. Abandonamos qualquer ilusão didáctica, e entramos numa área mais abstracta e indefinível. Um conjunto de cães repousa ociosamente na praia. Muito lentamente, a imagem fica cada vez mais sobreexposta até tudo se dissolver num branco incandescente. É de novo uma demonstração do poder do cinema, não aquele que deriva do enquadramento (da fronteira), mas o poder da ocultação e da duração (da morte e da eternidade). Desesperadas, as ondas criam variações minimais na brancura em crescendo.
4. Segue-se uma parábola. Seguindo a direcção sugerida pelas ondas do mar (direcção que resulta da forma como estão enquadradas), um conjunto de aves atravessa a imagem da esquerda para a direita. Ao fim de algum tempo, regressam na direcção contrária, mas em maior número, num grupo mais denso, e com mais velocidade. Dois sentidos, pelo menos, são decifráveis: ou a cena é a representação da Onda da vida (difícil na subida, fácil na descida), ou o retrato impiedoso da carneirada, como se a comunidade já não pudesse ser exemplar (fundada numa necessidade genuína). Pobres aves: tão inutilmente atarefadas quanto os cães permaneciam repousados.
5. Tudo se torna abstracto. Tanto ao nível da imagem (negrume nocturno, reflexo da lua fraccionado na água em movimento, nuvens negras visíveis devido ao luar), como do som (um cão a ladrar e um pássaro a piar, trovoada e, por fim, a chuva). O mundo das trevas (a ocultação decisiva) é uma pintura abstracta, dramática e desesperada; é também uma composição musical, improvisada; é uma canção sem palavras. O cinema transforma-se numa coisa outra, no limite de si mesmo. No fim, regressa a manhã: como se o cinema tivesse de ultrapassar a sua própria fronteira (a sua dissolução), para poder retomar uma mensagem de esperança. Disso depende a comunidade.
Kiarostami tem estado em silêncio. Talvez já esteja para além da criação. Ou então, prepara uma arte plena de luz.

Sem comentários: