quinta-feira, novembro 23, 2006

O cravo e a ferradura

Aprecio o humor apenas quando ele se confunde com o pensamento. Se gosto de Buster Keaton é porque, na inteligência deste cineasta, o provocar da gargalhada faz parte de uma estratégia de partilha de uma determinada visão do Homem e do Mundo, e nada tem a ver com a preguiça demagógica ou mercenária.
Cervantes faz-nos rir de D. Quixote. E nada disso tem a ver com a mera crítica a um género literário (as novelas de cavalaria), a um tipo de carácter psicológico, ou à pulsão utópica. O romance é demasiado denso, universal, e actual, para se ficar por aí.
A figura do cavaleiro andante levanta a dor de diversas feridas. Desde logo, o facto da nossa vida ser de facto pobre em aventura (leia-se a palavra no seu sentido mais nobre). E nesse aspecto, este livro pertence a uma elite: não uma elite de cultos, mas de irreverentes. Pois se a maior parte de nós se contenta com o sábado à noite e as duas semanas em Cuba, outros há que infantilmente esperaram demasiado da vida e esta apenas lhes deu tédio e realidade. Além disso, Cervantes também polemiza em torno do conceito profissão: Quixote quer trabalhar no bem comum, na intensidade do quotidiano, e no amor. Em que Universidade somos preparados para isso?
O autor, porém, conhece os Homens demasiadamente bem para só lhes descrever as aspirações recalcadas. Assim, no primeiro problema que Quixote resolve (o rapaz a ser espancado pelo seu empregador), mais valia que o cavaleiro tivesse feito um soneto que tal emenda. Ataca inocentes, vê problemas onde eles não existem. E se Sancho não sabe ler, Quixote leu tão mal os seus romances de cavalaria que nem percebeu que a falta de alusões à alimentação dos cavaleiros era uma questão de eficácia e técnica narrativa, e não uma subtileza documental. Quem se deixa levar pelo pensamento, não só tende a ser mais pequeno que este, como desconhece a diferença irónica entre Ideia e Real.
Uma no cravo. Outra na ferradura. Assim somos todos: escritores e leitores, mesmo quando a literatura strictu sensu nos passa ao lado. Que fazer? Rir.
Quando eu for governador de uma ínsula, levo para lá este livro para o colocar na prateleira deserta do romance.

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