terça-feira, novembro 28, 2006

O ACTUAL 7

"Juventude em marcha" - Pedro Costa

No último filme de Pedro Costa, Ventura anda à deriva entre diversos espaços habitados. Cedo se apercebe o espectador da falta de lógica que rege tais périplos, pois Ventura passeia-se não tanto entre casas (degradadas nas Fontainhas, assépticas no novo bairro), mas essencialmente entre tempos (um passado tumultuoso, um presente hirto), entre narrativas (cada filho exprime a latência de um filme que lhe é específico), entre mundos (os vivos, os mortos).
Se o progresso é um burocrata que divide a Humanidade por apartamentos, Ventura gostava de ter uma casa suficientemente grande para alojar todos aqueles que a sua candura adopta. O cineasta até pode ser acusado de paternalismo. Mas o certo é que Pedro Costa desenvolveu um método de trabalho onde, de uma cajadada só, matou a típica solidão de um realizador (os seus filmes fazem-se em torno de afectos reais), e deu voz àqueles que não a têm. Por outro lado, não acredito que Costa sinta qualquer tipo de nostalgia pelas condições de vida no bairro das Fontainhas. Simplesmente demonstra o fosso que existe entre o modo como uma classe marginal de indivíduos experimenta os anseios mais fundos de ser humano (essencialmente a vida em família, mas também a saúde, o amor, o trabalho) e as soluções que a sociedade triunfante tem para lhe oferecer. E o filme é rigoroso: não faz existencialismo para todos, mas política.
No entanto, o que me seduz é a forma como tudo isto é realizado. A obra divide-se em planos-sequência, quase sempre fixos, de longa duração. O que é curioso é que cada plano é tratado como uma unidade irredutível, com a sua idiossincrasia e comportamento. Ou seja, o filme é uma sucessão de meticulosas miniaturas onde a forma individualiza sempre aquilo que é encenado. O vento e o negrume nos planos soltários e revoltados de Lento, a banda sonora televisiva e a brancura inexpressiva da vida monótona de Vanda, a sombra que engole a casa da outra filha: a mise en scène cria imagens individuais que em si mesmas contêm filmes inteiros (imagens-tempo), filmes montados uns nos outros apenas pela omnipresença digressiva de Ventura. "Juventude em marcha" é a casa onde Ventura tem tantos quartos quantos os filhos a quem confere condições de expressão. O filme obedece a uma ética de montagem que não é austera mas verdadeiramente utópica. Pedro Costa constrói genuínos filmes-lar.
Ainda algumas palavras para os dois elementos mais expressivos da obra. Ao contrário do que geralmente sucede no cinema de ficção estandardizado, onde o actor nem sempre consegue insuflar vida na personagem que acolhe por ambição ou mero profissionalismo, a ligeira ficção que aqui se apõe aos não-actores (e o tempo improvisado com que se joga) permite que estes revelem toda a sua densidade humana. Eles não têm técnica, têm preconceitos distintos daqueles que as vedetas ostentam, não investigam, não tratam o corpo. Eles são. E a frágil ficção apenas lhes concede a equivalência ao artifício que uma câmara sempre impõe. Assim Vanda revela uma rugosidade típica da sua educação, da sua classe social e do abismo da sua biografia. Ventura demonstra aquela tristeza que surge quando a virilidade desagua na velhice. E etc.
Por fim, a luz. A opção pelo chiaroscuro não é ambição pictórica nem prática da citação. Pedro Costa trabalha a luz em termos de suportabilidade. Para aqueles seres esmagados, só a luz suave lhes permite ser com alguma verdade. O branco incandescente (que em Garrel é poesia) torna-se aqui agressão desmedida. A luz combina-se com a anima de cada filmado, já não segundo as convenções do expressionismo, mas segundo uma empatia que não distingue ética de estética.

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