quinta-feira, novembro 16, 2006

O ACTUAL 6

"Dans Paris" - Christophe Honoré

O cinema dito musical funcionou sempre em torno do espírito da comédia. E ainda bem que assim foi, pois os assuntos graves estão sempre demasiado próximos do ruído: o seu intérprete tem de ter mão subtil. No entanto, a conjugação do gosto pela canção com o desejo de drama gerou alguns dos filmes mais belos que esse género pode ostentar. É o caso de "A star is born" de George Cukor ou de "Les parapluies de Cherbourg" de Jacques Demy.
Christophe Honoré quis fazer um filme onde a comédia e o drama se ligassem pelo elo da fraternidade. E se em "Dans Paris" só se canta uma vez, é porque o realizador é suficientemente sensível (e contemporâneo) para saber que um género não se define apenas pelas suas características mais óbvias, e por isso pode ser mais sugerido do que exposto. "Dans Paris" não é um feel good movie (é demasiado resignado para tal), nem uma comédia romântica (não tem nenhuma delicodoçura). É um esboço de musical.
O tema do filme é muito simples: a diferença entre a tristeza e a alegria. E que bom que é ver o assunto tratado sem psicologia (barata ou cara, dispensam-se ambas), sem recorrer aos cuidados paliativos, à solidariedade que nunca foi convidada, aos julgamentos morais, ou à caracterização estereotipada (a personagem de Louis Garrel é a mais sedutora?, claro, mas no seu caso, o ser estouvado comporta alguma irresponsabilidade perante o outro; o pai é um chato monótono?, claro, mas foi um excelente pai).
Se o tema é simples, o que sobre ele se diz também não é complexo. O discurso de Romain Duris perto do final apresenta a tristeza como sendo sempre antiga, anterior à própria vida do melancólico, pertencendo-lhe com a mesma fatalidade da cor dos olhos. Não quer isto dizer que o autor pense que a tristeza é genética, mas que considera que ela é uma categoria temporal (Duris, deprimido, nunca sai do quarto a não ser para tentar o suicídio). Em compensação, Louis Garrel, a encarnação da alegria, atravessa a cidade de Paris aproveitando as suas diversas propostas de fruição sensual. A alegria é uma categoria espacial. Daí a necessidade da urbanidade (um espaço cheio, variado, onde tudo é pressa e promessa), contra a opção que Duris tomara pela ruralidade (o campo é sempre ancestral).
Não quer isto dizer que os dois sentimentos não contactem entre si. Garrel promete ao irmão chegar ao Bon Marché em meia-hora. Demora um dia inteiro (espalhou-se no tempo), distraído que foi pelas mulheres que Paris lhe ofereceu. Mas o amor que ele fez com cada uma dessas mulheres, sentiu-o como sendo uma oferenda ao deprimido irmão. Ao mesmo tempo, ele assume-se como narrador da história (tem o dom da ubiquidade, de estar em todo o lado ao mesmo tempo), ou seja, traz a distância necessária à vida do irmão. O lobo e o coelho (da história infantil do final) têm naturezas para sempre diversas. Mas o laço que os une é tão forte, que basta o pensamento (e nunca a acção) para que um possa não-intervir na vida do outro.
E qual o objectivo dessa não-intervenção? Aprender a conviver consigo mesmo. Quando a canção surge, Romain Duris já se resignou (à sua fragilidade, ao falhanço da sua relação amorosa). É o momento em que a dor deixou de ser aguda, e passou a estar mais de acordo com o assunto a que se refere: tornou-se grave.
O que resta? O filme fala do amor familiar (com citações constantes à família cinéfila do realizador). É um filme em roupa interior, em pijama, em pequeno-almoço e árvore de natal. É um filme que se passa na cama. Não na cama do sexo, do desespero ou da agressão. É a cama da simples proximidade.
Paris est trop petit...

Sem comentários: