segunda-feira, novembro 13, 2006

O ACTUAL 5

"The departed" - Martin Scorsese

De um ponto de vista afectivo, a obra de Scorsese só me interessa até ao filme "The king of comedy" (tendo esta solidariedade o seu ponto alto na obra-prima "Raging bull"). Perante aquilo que veio a seguir, coloco-me sempre na postura do analista que admira intelectualmente o grande cineasta, mas nunca invisto a minha sinceridade cinéfila. E contudo, se nesta segunda parte da sua filmografia, há filmes que deixaram um evidente rasto histórico, como "The last temptation of Christ" ou "Goodfellas", outros há que são injustamente considerados menores, mas que eu defendo com vigor. É o caso de "After hours", "The colour of money", "Cape fear", ou da pequena pérola incluída em "New York Stories".
A mutação de Scorsese parece-me análoga à que sofreu o autor francês Alain Resnais. Eu diria, desajeitadamente, que num primeiro momento o seu cinema era afectivo/político (expressividade experimental, desejo de polémica, visceralidade emotiva), cinema esse que se lentamente foi tornando lúdico/discursivo (tendência para o artifício, distância palavrosa perante os assuntos, eclosão do humor). Se sigo Resnais com mais paixão, é porque me parece que este soube encontrar o conteúdo e o tom justos para neles encaixar essa maneira lúdica (a ponto de o seu cinema já não poder fazer marcha-a-trás), enquanto Scorsese continua a querer encenar a grande violência e todo um conjunto de angústias sérias que me parecem perder alguma pertinência num cinema de pechisbeque (uso esta palavra sem sentido pejorativo).
"The departed" glosa o tema da identidade (tema essencial num país de emigrantes como os E.U.A.). A um dado momento da narrativa, descobrimos que a palavra-passe que permitia aceder aos dados verdadeiros (e secretos) da personagem de Leonardo Di Caprio, era o seu nome real. Pois tudo o resto é falso. Di Caprio (tomo os nomes dos actores pelos das personagens) teve um mau passado, no presente faz parte dos funcionários do bem (a polícia), vai representar o papel de mau no seio de um grupo de gangsters, mas fá-lo com demasiada convicção porque, no fundo, a violência está-lhe no sangue. Ao contrário, Matt Damon é mau, está a interpretar o papel de bom, e também demonstra demasiado talento nessa performance, pois o que ele quer é ser burguês. Peço desculpa pela terminologia maniqueísta, mas é precisamente esse espírito que o autor quer pôr em causa: o que é o Bem e o que é o Mal? Haverá, de facto, uma correspondência real dos conceitos simplistas e abstractos propalados pela religião? O espectador fica mesmo com a sensação de que Di Caprio tem de ocupar aquele desconfortável lugar porque Damon, seu duplo, ocupa o lugar simétrico (eles estão socialmente apartados, parted, e por isso as suas posições não são tão intermutáveis quanto parecem). Portanto, tudo isto tem mais a ver com classes sociais do que com uma pura moral. O próprio Nicholson, aparentemente a encarnação de todo o Mal, não servia de informador para o FBI?
Dizem as feministas que o homem, incapaz de gerar vida, inventou a ambição. O Bem e o Mal como invenções másculas? Não é por acaso que as conversas do filme constantemente rondam o assunto sexo, que Damon fica temporariamente impotente (por causa da violência recalcada?), que se ilustram obsessões viris (homofobia, gosto por lésbicas). E não é Nicholson a presença maior-do-que-a-vida de um Patriarca? Os machos têm todos de morrer, e só a rapariga, moralmente flexível ao ponto de transportar um bebé cujo pai tanto pode ser Damon como Di Caprio, tem direito à sobrevivência e à esperança. É a abelha que sobrevive aos zangados zangões (the departed). Uma tese como outra qualquer...
Neste esquema de artifício (até a cidade é Boston, e não Nova Iorque), a violência física torna-se mais sedutora que pungente (influência de Tarantino), e a violência verbal descamba no humor (influência de David Mamet). O próprio modo de filmar já comporta algum academismo na constante auto-citação, e o extraordinário ritmo já o conhecíamos de "Goodfellas". Assim, o mais relevante acaba por ser o trabalho com os actores. Pois quando estes são formados na técnica do Actors Studio, garantem que conduzem a sua própria matéria emocional para as suas composições, podendo chegar àquele ponto limite em que um intérprete se torna na coisa interpretada. Scorsese, ao mesmo tempo que parece fazer um tributo à escola americana de representação, subverte-a com lucidez. Se Di Caprio é convincente como gansgter (na segunda ficção) por causa da verdade que o afecta quando não está a representar, e se esta primeira ficção não passa afinal disso mesmo e não contém grande verdade, quem garante que a matéria que o actor vai buscar à vida seja genuína? Quem jura pela psicologia? Onde está o homem por trás do actor? Tudo isto é como as matrioskas: cada nível esconde um outro nível ao mesmo tempo mais profundo e mais ilusório. Não é por acaso que, no filme, há quem afirme que se reconhece um polícia por este fingir não o ser. Scorsese afasta-se de Robert de Niro (mesmo este se afastou de si mesmo até chegar à auto-caricatura).

Por fim, uma advertência. Foi a geração de Nicholson que inventou o comportamento jovem-viril que ainda hoje releva na civilização ocidental (James Dean ainda foi uma bela mas dolorosa transição). Dele descedem os mais irritantes (Tom Cruise) e os mais capazes (Matt Damon). Que Nicholson se tenha tornado um cabotino, uma metamorfose grotesca da sua aparente fulgurância juvenil, é uma ameaça para os dois jovens protagonistas do filme, especialmente para a força indómita de Leonardo di Caprio.
Estados Unidos: um país a braços com a sua identidade?

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