sábado, novembro 11, 2006

No escrínio 9

Poema "Assis" de Paul Celan, traduzido por João Barrento:

Noite úmbrica.
Noite úmbrica com a prata do sino e da folha de oliveira.
Noite úmbrica com a pedra que para aqui trouxeste.
Noite úmbrica com a pedra.

Mudo o que entrou na vida, mudo.
Esvazia e enche os jarros.

Jarro de terra.
Jarro de terra que traz no barro a mão do oleiro.
Jarro de terra que a mão de uma sombra para sempre fechou.
Jarro de terra com o selo da sombra.

Pedra para onde quer que olhes, pedra.
Deixa entrar o burrico.

Animal a trote.
Animal a trote na neve espalhada pela mais nua mão.
Animal a trote adiante da palavra que se fechou.
Animal a trote que vem comer o sono à mão.

Brilho que não consola, brilho.
Os mortos, Francisco, ainda pedem esmola.

Este poema (escrito por um judeu inquieto a propósito de um santo católico) foi inserido no livro "De limiar em limiar", publicado por Celan em 1955 (quando contava com cerca de trinta e cinco anos de idade), e dedicado à sua mulher Gisèle.
Não será absurdo perceber aqui (como Felstiner) uma alusão encapotada ao filho que o casal esperava, mas que acabou por morrer. A criança chamar-se-ia François, e de facto, se na vida entrou, entrou muda. Mas parece-me que esse não é um bom ponto de partida.
Há, na poesia de Celan, um espírito de bifurcação ao nível da ambiguidade. Pois se o discurso é geralmente bastante claro (aqui, a constatação de uma agónica Espera de índole religiosa, na qual a polémica em torno do Messias parece diplomaticamente ocultada), os seres convocados para dar corpo a esse discursso tanto podem ser valorizados positiva como negativamente. O que, desde logo, baralha as regras do jogo: é o discurso que costuma ser hermético, não a realidade. Por exemplo, a pedra que aqui se evoca, tanto se pode referir às edificações religiosas da cidade de Assis (e não nos esqueçamos que S. Pedro foi a primeira pedra da Igreja), como pode ser a esterilidade monótona que o olhar contempla no verso onze. Outro exemplo: no fabuloso poema Recordação, o poeta valoriza o figo e humilha a amêndoa sem que haja qualquer complacência simbólica nessa opção de afecto. Simplesmente, o real apresenta-se-nos mudo, pedra, e é o discurso que o contorna, que o usa para fazer sentido, sem contudo lhe corromper a liberdade e a amplitude.
O tom do poema é humilde porque o homenageado é S. Francisco. Os versos seis, doze, e dezoito, descrevem um quotidiano simples: a renovação (esvaziar e voltar a encher), o acolhimento (do animal, criatura prezada pelo santo), e a súplica. O trabalho do dia a dia confunde-se com a prática religiosa: um é espelho do outro. É essa a missão do santo, do poeta, do homem, enquanto se movimentam a trote, na terra, em plena noite.
O poema fala de uma certa mão: é claramente a mão de Deus, que selou a terra com uma sombra, com a noite nevada, melhor dizendo: com o Seu silêncio. No entanto, não esqueçamos que umbria pode aludir, mais do que a uma região de Itália, à parte ocidental de um monte que está na sombra quando o sol se levanta. Mas continuará assim, quando o astro já está no oeste? E no belíssimo poema que neste livro Celan dedica a René Char (os vasos comunicantes...), não é a noite equiparada à Palavra destinada a amanhecer?
O brilho (da prata do sino, talvez das estrelas) não consola. É que essa prata é afinal a da moeda de um Deus cuja Mão continua a negar aos Mortos suplicantes a sua Salvação.
Ainda?
(O poema é suficientemente vago para poder ser levado numa direcção um pouco divergente desta)

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