segunda-feira, novembro 20, 2006

No escrínio 10

Poema de F. G. Lorca, traduzido por José Bento:


Das pombas escuras

Pelos ramos do loureiro
vi duas pombas escuras.
Uma delas era o sol,
a outra era a lua.
Vizinhitas, lhes disse eu,
- onde é minha sepultura?
Em minha cauda, o sol disse;
na minha garganta, a lua.
E eu, que ia caminhando
com terra pela cintura,
vi duas águias de neve
e uma rapariga nua.
Uma delas era a outra
e a rapariga nenhuma.
Aguiazinhas, lhes disse eu,
- onde é minha sepultura?
Em minha cauda, o sol disse;
na minha garganta, a lua.
Pelos ramos do loureiro
eu vi duas pombas nuas.
Uma delas era a outra
e as duas eram nenhuma.

O poema faz parte de "Diván del Tamarit", um dos livros menos conhecidos de Lorca, escrito entre 1931 e 1934 (contemporâneo, portanto, do "Llanto por Ignacio Sánchez Mejías"), mas publicado apenas em 1940. Tamarit era uma herdade da família do poeta onde ele escreveu muitos dos textos da obra em questão (o mesmo que Duíno para as elegias de Rilke), e Diván é o nome árabe para uma colectânea de casidas (o poema aqui transcrito é uma recriação dessa forma) e gacelas.
O sujeito lírico demanda aos astros (que podem não passar de miragens) um sítio para morrer. Mas no feed-back ambíguo que recebe, está latente uma mulher nua. Uma resposta erótica para uma questão de Tanatos? De facto, o poema cria a ilusão de que a mulher suavizou o sol e a lua, fazendo-os desaparecer (ela não se confunde com as pombas, e essas pombas, no fim do texto, são coisa nenhuma). Mas o facto é que a mulher também pode ser fruto do delírio.
O texto evolui de forma exemplar. Os dois astros luminosos (as duas pulsões contraditórias que nos agitam como se fôssemos a Preciosa de "Romancero Gitano" percorrendo um carreiro anfíbio) começam por ser poeticamente entendidos como pombas escuras (na sombra?, vestidas?, os olhos do sujeito estão toldados?). Mas logo a seguir, sol e lua tornam-se águias de neve: se, por um lado, as aves crescem em tamanho e perigo, e ainda por cima adquirem brancura (luz), por outro, transmitem nada mais do que frio (somos levados a pensar que o sol era a lua). A pacificação dá-se na terceira metamorfose: voltamos à ternura das pombas, mas elas agora estão nuas (só a um nível metafórico se mantêm níveas). Curiosamente, isto parece um processo dialéctico. O poeta toma consciência do desarranjo do mundo (obscuridade), sente-o como dor (o frio táctil e de rapina), mas acaba por fazer reduzir a dor à ocultação. Será a morte uma rapariga nua?
O facto de as aves convocadas serem as pombas (normalmente associadas à paz), e de o loureiro ter protagonismo no texto (planta que se confunde com a ideia de uma coroação apolínea), tudo isso parece sugerir que o sujeito falante é, se não um soldado, pelo menos um lutador. Afinal ele arrasta-se com terra pela cintura. Será eventualmente um homem ferido em plena alucinação. Mas nem aqui podemos ter certezas: na primeira casida do Diván, há um menino que foi ferido pela... água (que no presente texto se tornou neve). Trata-se, porventura, de uma ferida lírica, da recepção do mundo como paixão.
A garganta da lua? Talvez seja a sua voz, essa que Fellini velou no seu último filme.
A cauda do sol? Parece claro que é o crepúsculo (ou a luz que ele deixa para o satélite lunar).
Uma era a outra porque estão em eclipse?
A mais metafísica das perguntas só pode ser não-respondida pela poesia.

1 comentário:

Carmen Regina Dias disse...

AMEI!!!!

e peço permissão para colocar em meu blog, http://carmenrdias.blogspot.com/

gostei da boa tormenta...
maravilha...