quinta-feira, novembro 23, 2006

Lendo "Dom Quixote"

A história de (des)amor que o romance de Cervantes insinua entre o jovem Crisóstomo (rapaz-só-qualidades) e a bela Marcela (rapariga-só-estranhezas) é servida por dois exercícios de estilo que descolam do tom habitual da narração.
De Crisóstomo, ouvimos um poema em que ele se entretém a carpir a tampa com que Marcela fechou o seu amor profundo. O poema é de uma banalidade atroz. Já lemos aquilo tantas vezes, que só o podemos receber com um bocejo.
Como tudo em Cervantes me parece propositado, é com parcialidade que ele oferece aos lábios de Marcela um discurso tão sensível ao nível do ritmo, tão subtilmente musical, com uma dicção tão digna, que a defesa que ela faz da liberdade perante a exigência comum do amor convence muito mais o leitor do que o queixume do rapaz que por paixão pereceu. Fosse o assunto tão grave como o de Antígona ou Joana d'Arc, e estaríamos nos cumes verbais de Sófocles e Dreyer. Ora, o amor é tema agudo. Assim sendo, a rapariga fala com a clareza e a razão de um filósofo antigo que não consegue destrinçar a verdade do talento retórico.
Transcrevo dois momentos do discurso (não sabendo se estou a elogiar apenas Cervantes, apenas o tradutor Miguel Serras Pereira, ou a amizade entre ambos):
(...) Eu conheço, com o natural entendimento que Deus me deu, que todo o formoso é amável; mas não alcanço que, por razão de ser amado, esteja obrigado o que é amado por formoso a amar quem o ama. (...)
(...) O que me chama fera e basilisco deixe-me como coisa prejudicial e má; o que me chama ingrata não me sirva; o que desconhecida, não me conheça; quem cruel, não me siga; que esta fera, este basilisco, esta ingrata, esta cruel e esta desconhecida não os buscará, servirá, conhecerá nem seguirá de sorte alguma. (...)

Sem comentários: