domingo, novembro 05, 2006

Inspiração

Se no cinema, a câmara (cuja função é espiritualizar) é continuamente obrigada a respirar com o real, poderíamos supor que no caso da poesia, o autor estaria condenado a respirar com a mera memória do mundo.
Nada mais falso: se um homem é poeta, é porque para si a palavra é real, é uma coisa, dura como a pedra, viva como um órgão humano. Uma das fragilidades do cinema, aliás, é o tratamento ingénuo que confere ao verbo, tomando-o como algo qualitativamente distinto dos outros elementos em campo. O cinema não requer a palavra, mas se a usa, deve-lhe a humildade de a tornar irmã do actor, do cenário, do foco de luz.

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