domingo, novembro 19, 2006

Iluminação (indirecta)

Muitos adultos, quando entregam os seus filhos a um professor de instrumento para que este lhes ensine uma mais-valia de formação (quando a música é acima de tudo um processo de deformação), pretendem que a criança se torne um Horowitz no espaço de algumas semanas. E querem isto de verdade, e com agressividade.
Tudo o que eu sei, do ponto de vista criativo, aprendi-o acima de tudo com o tempo. Qualquer ensinamento que me tenham transmitido, qualquer frase roubada a um livro mais generoso, uma ou outra experiência cheia de lições: só assimilei isso com o passar dos anos, na fronteira entre a universidade da vida e a gazeta do pensamento.
Ontem, resolvi espreitar o Romancero Gitano de Lorca. E, de repente, aqueles poemas que me haviam parecido belos apenas porque praticamente tudo neles me escapava, de repente aqueles poemas tinham-se tornado claríssimos. O universo do poeta mostrava-se precisamente como um universo: imenso, inesgotável, redemoinho de tentação. Aos trinta e quatro anos de idade, penso que aprendi, finalmente, a ler.
Su luna de pergamino
Preciosa tocando viene
(Versos para a epígrafe de uma Ética do Professor)

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