domingo, novembro 19, 2006

Crónica do cigarro

Elegia - Dir-se-ia que o cigarro é sempre um último desejo. De tal modo está nele a vida toda envolvida numa mortalha. E ainda porque o tabaco se presta filosoficamente a nada mais devir senão cinza e mais cinza. Dir-se-ia que o fumador, sabendo que ser humano é uma contagem decrescente, pretende que a ave que sempre renasce da degradação de um corpo tenha direito a alguma nobreza no momento do seu único voo.
Fumo - Dir-se-ia que o hábito do cigarro contradiz a cristalização do desejo. Talvez porque este seja um vago odor que precisa da carne para poder arder, enquanto o cigarro termina precisamente num odor e assim reata o devir erótico do mundo. Ou então porque o cigarro é sempre um preliminar. Depois do seu calor, da sua sujidade, do veneno que contém, depois da chama insidiosa que finge não queimar e do fumo que, prestidigitador, finge cumprir velhas ambições ao etéreo, que mais pode surgir senão a vida (a única coisa que afinal possuímos sem filtro)? A pátria do vivente é este português suave.
Narração - Não eram os deuses belos nem os industriosos que preferiam o tabaco. Aqueles eram ambrósios da ambrosia, estes seguiam um menu light. O grande fumador era Hermes, a divindade graciosa onde se conjugavam os melhores atributos que passariam para os Homens: o contágio de boas novas, a juventude, o voo, o roubo e a troca. Conta-se que Alexandre só fumava quando fazia amor com homens. E de Cleópatra, diz-se que o leite de burra fora uma mentira para enganar outras fêmeas desejosas de beleza: a mulher conservava-se era em tabaco. De humano, Cristo só tenha o vício de fumar. Os padres da Inquisição faziam cigarros com restos de bruxas: com as melhores das intenções. Quanto a Rimbaud, os seus versos só foram possíveis devido à falta de nicotina (a falta era ancestral, anterior ao seu próprio nascimento). Greta Garbo só se concentrava quando os plateaus cheiravam a tabaco. Sempre se desconfiou que o Marlboro Man fizera um voto de castidade na adolescência (já tinha sexo suficiente entre os lábios). E a verdade é que o Capuchino Vermelho estava a tirar umas passas quando viu o lobo, e só por isso se assustou.
No século XXI, diz-se que a Narração chegou ao fim.

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