sábado, novembro 04, 2006

Crónica do chocolate

Mark Rothko morreu sem ter pintado esta sua última obra-prima. Na Sotheby's, já crescia água na boca de toda a gente. Talvez fosse aquilo a que os britânicos chamam word of mouth, e por isso mesmo se espalhou, doce porque elo-quente.
Havia quem já lhe desse o título A face oculta da lua. O autor, tendo atingido o maior valor calórico (colérico) da sua criatividade, afirmava que o verdadeiro quadro não era o resultado evidente desta sua cozinha, mas o branco amargo que permanecia indomado nas traseiras da tela.
Os miúdos só pensavam em fazer dedadas no quadrado: pequenos passos para as mãos, grandes pegadas para as bocas.
Aliás, muita agitação surgiu em torno da obra omissa: os hermeneutas supuseram um recheio, os falsários reconstituiram a receita original, os pensadores dela derivaram conceitos (juntaram-na à Razão, que é menos ordem do que ordenha), os coleccionadores aprimoraram as suas técnicas de congelamento, os comerciantes sonharam com cacau.
Os poetas comeram o quadro. Não por estarem rotos de fome (ou aluados pela sugestão das pratinhas), mas porque não resistem às iguarias de um museu imaginário.

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