quarta-feira, novembro 08, 2006

Blogante

Inicio a leitura do "Dom Quixote". Já tudo, mas mesmo tudo, terá sido dito sobre o seminal romance. Mas tal não me impedirá de ir fazendo o diário da minha leitura, sem outra ambição que não seja a de me entender comigo mesmo e com o mundo onde me romanceio. Tentarei registar apenas o que for menos óbvio.
O magistral Prólogo da obra, para além do procedimento gracioso que prolonga o escritor num amigo que só pode ser imaginário (o eterno tema do duplo), leva-me a supor que essa cisão já é uma previsão da parelha Quixote/Sancho. Pois enquanto o autor está cheio de pruridos morais que o impedem de contornar a feitura de um prólogo tradicional, o amigo resolve tudo às três pancadas, com uma esperteza saloia que é tão justa que não se confunde com desonestidade. Se a coisa se pauta por convenções, não merece outra atitude que não seja a manha. Concordo: todo o escritor assim deveria tratar a sua badana, todo o cineasta o seu trailer, etc.
Esta fusão Quixote/Sancho dá frutos imediatos no primeiro capítulo, quando o fidalgo em processo de conversão em cavaleiro andante, tendo a primeira experiência que faz com as suas armas redundado num fracasso, decide não voltar a testar a eficácia destas mesmo após uma tentativa de melhoria. Isto tem tanto de Quixote (não querer confrontar-se com a realidade) como de Sancho (resolver as coisas de forma medíocre). Que outra coisa se pode dizer daquele que nunca se liberta da ilusão? Nobreza e mediocridade cavalgam lado a lado.
O processo de metamorfose do fidalgo recorre a todos os mecanismos associados à literatura: a escolha de pseudónimo para si, a invenção de um nome para o cavalo (presumo que Rocinante seja uma espécie de neologismo feito a partir da palavra rocim; é nesse espírito de levar a identidade de uma coisa até às suas últimas consequências que, com pretensiosismo, intitulei este meu post); concebe diálogos que ainda não existem; tem cuidados de escrita poética na escolha do nome da amada. Ao mesmo tempo, quando sofre alguma hesitação na busca das acções (da narrativa) a que se propôs, a loucura (o intelecto) vem salvá-lo e compelo-o a continuar. Ou seja, apesar de ainda só ter lido duas dezenas de páginas, não sei se este é apenas um livro sobre livros (a definição do autor como aquele que questiona a mediocridade da arte a que se dedica), ou se não se referirá à vida de qualquer homem, pois ser humano é precisamente esta coisa de só agir quando a literatura (o espírito) confere validade a essa acção.
Abismo incontornável, cómico, trágico, frutuoso.

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