quarta-feira, novembro 01, 2006

Beware of the third film

Houve um tempo em que eu dava especial atenção ao terceiro filme de um novo autor (apesar dos cineastas se preocuparem acima de tudo com o segundo, quando o primeiro lhes corre bem). O terceiro filme do Mamet consagrou-o, o mesmo para os irmãos Coen, e Zhang Yimou, antes de iniciar a sua decadência a pique, realizou essa obra-prima que em português recebeu o título de "Esposas e concubinas". Hoje estou muito mais distraído.
Pelos vistos, "Marie Antoinette" não é o terceiro filme de Sofia Coppola. Mas é o terceiro dos que lhe fizeram a fama. Infelizmente, não me convenceu.
Parece-me que a realizadora quis fazer um filme feminista, ou pelo menos em torno do feminino (o que seria óptimo), mas acabou por fazer um filme de gaja (o que é péssimo). A ideia seria filmar Kirsten Dunst como um ser humano demasiado genuíno (nas suas fraquezas, belezas, expectativas, inocências) para poder ser enquadrado no cenário absurdo da corte de Versalhes. Mankiewicz fê-lo em "The barefoot comtessa" em torno da relação Ava Gardner/Hollywood. Outro pressusposto do filme seria o de encenar Maria Antonieta como sendo uma teenager do fim do século XX (ideia excelente, e bastante bem materializada). Não é só a música punk que é anacrónica. Tudo no filme se reenvia para a adolescência de Sofia Coppola.
Mas em vez do rigor de "Virgens suicidas" ou do charme inteligente de "Lost in translation", a realizadora perdeu-se na futilidade que quis polemizar. Ao fim do centésimo sapato, de bolinhos de todas as cores, da infindável parafernália daqueles vestidos sumptusos com que as meninas sonham, fica claro que a cineasta se deixou ludibriar pelo luxo. É, de resto, um problema que assombrou o seu pai, mas também Scorsese, Kubrik e Greenaway: por vezes os anglo-saxónicos confundem ambição com fausto, querem mostrar todo o dinheiro que gastaram com os seus delírios, e perdem a noção da fronteira entre beleza e kitsch. Eu que até gostava de falar da roupinha de antanho, fiquei tão enjoado que ninguém mais me convence a vestir uma personagem feminina a não ser com calças de ganga (algo de semelhante me aconteceu em "Singing in the rain" a propósito da cor amarela). Ficamos sem saber o que Sofia Coppola pensa, de facto, sobre aquela futilidade que é própria das mulheres (a ambiguidade aqui é pouco interessante). E no meio de tantos folhos e talhas douradas, o filme fica vazio de todo e qualquer discurso consistente ou desafiador (político, histórico, psicológico, feminista, etc.).
Estes americanos em Paris... Só desejo que a autora fique mais segura de si e da sua própria cultura, para não mais escorregar num filme para inglês ver.

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