terça-feira, novembro 14, 2006

Achegas cervantinas

1. No "Dom Quixote", tudo tende para a imaginação: a realidade sofre a ebulição do louco, os diálogos são paninhos quentes para que este não sucumba, os livros não deixam mais que vapor. Mas por entre tais inocuidades sem matéria, a violência FÍSICA que delas deriva é bem real. E queima. Não é preciso convocar a memória da Inquisição ou do Estalinismo para provar tão grande verdade (até porque Quixote era, de facto, um puro). Basta o nosso quotidiano.
2. No romance, para que alguém se possa rir de D. Quixote à vontade (e que mais há a fazer?), tem de se esconder do orgulhoso cavaleiro da demência. O leitor está protegido pela mediação do livro, já está escondido. Talvez o riso de um leitor seja sempre uma covardia honesta. Pois no cinema a covardia deriva do contágio, e no teatro confunde-se com a celebração. Ontologias.
3. O encontro entre o cavaleiro da triste figura e os mercadores de seda (capítulo IV da primeira parte) traduz alguma verdade sobre a prática do lirismo. Pois enquanto D. Quixote, sem humor e desligado do mundo (respira pela máquina da literatura), celebra Dulcineia com lugares-comuns enfatuados e sem graça, o mercador sabido (provavelmente um expert da sensualidade, e um conhecedor das naturezas do Homem) pede ao louco andante que lhe forneça um retrato da sua amada que tenha o tamanho de um grão de trigo (o amor pão nosso de cada dia, a semente que constrói o edifício relação), que seja um fio por onde se possa descobrir o novelo de tão ilustre dama (a crença, afinal, nos poderes reveladores da pausa-poesia). Cervantes atingiu tal subtileza não por desejo de heteronimia, mas por conhecer a fundo as suas personagens.
4. Quando Quixote quer andar à deriva, ao sabor do acaso de que também provaram seus míticos modelos, o cavalo Rocinante (imbuído de alto ofício existencial) regressa, por instinto, à aldeia de ambos. Ah, vida romântica: besta sem imaginação.

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