quinta-feira, outubro 19, 2006

Rivolição

Todos conhecemos o Cassete Carvalhas e o Cassete Jerónimo. E é mesmo verdade que, no lado B destes senhores, a música é sempre a mesma. Mas basta ler os ideólogos de direita para ficarmos com a mesmíssima impressão. Não é preciso que o Dr. Pacheco Pereira (aqui o Dr. é necessário) escreva a sua Opinião: já a sabemos de antemão.
A Agustina é a minha romancista portuguesa de cabeceira. Sigo avidamente o blogue do Pedro Mexia. Aprecio os poetas e os pensadores católicos. Nunca tive problemas com a inteligência, quando esta escapa à estreiteza que sempre se lhe pretende impor.
Para além disso, voto sempre em branco (isto de esquerda está preto). Presumo ainda que o folclore da revolução só possa parecer risível à imaginação contemporânea. E se algumas das pessoas envolvidas no caso Rivolivre até são minhas amigas, é com rigor que reclamo que nem sempre essas pessoas respeitaram a minha liberdade com o mesmo rigor que agora devotam ao seu protesto.
Mas estou solidário com a ideia global.
É que, de facto, chegamos a um ponto da nossa História em que o aspecto determinante da nossa vida é tão-somente a economia. Não ria, leitor. Pois houve uma era da Razão, uma era de Deus, falou-se depois muito no Homem, agora é a Economia. É, na verdade, o fim da História. Mas depois do 11 de Setembro, mesmo os mais cegos compreenderam que esse não é um final feliz.
Há coisas evidentes: desde a proliferação nuclear (aproveito para lembrar que o único crime nuclear tem autoria dos Estados Unidos) ao terrorismo, tudo isso passando por esse absurdo que nos dizem ser demagógico mas que é, profundamente, um absurdo: metade do planeta sofre de obesidade mórbida, a outra metade da morbidez da fome.
Há coisas muito pouco evidentes: as pessoas nunca se questionam se todas essas horas que dedicam a um trabalho que só as deixa sobreviver é ou não um esbanjamento do tão curto e precioso tempo da nossa vida; o mundo tornou-se tão complexo que deixámos de o entender (perguntava Monica Vitti, em "L'eclisse" de Antonioni, para onde vai o dinheiro que se perde na Bolsa; e Alain Delon, profissional da especulação, não fazia a menor ideia); e é só pelos equívocos que a liberdade vai permitindo, que o mercado não se torna entidade ditatorial.
E ainda as coisas mais ou menos evidentes: os salários baixam, a reforma está a um passo de desaparecer, o trabalho acaba, a saúde tem de ser paga, os cursos universitários não garantem futuro nenhum, as situações de miséria são gritantes.
Até concedo que, neste mundo que construímos, já não se possa viver de outro modo. O velho Sócrates já não tem razão: há novo Sócrates em acção.
Mas permitam-me o desabafo: este mundo já não me parece construído para mim. Sou eu que tenho de me adaptar aos caprichos, às mediocridades, às pequenas tiranias do dinheiro. O dinheiro é o grande e o único triunfador da nossa humana aventura. E quem mais sofre com tal estado das coisas, é quem mais defende que tem de ser assim. Dizem-me que o que se leva desta vida é o sábado à noite... Pois eu levo esta minha estranheza que pretendo mais filosófica que demagógica.
Ou serei o único que acho que umas centenas de contos pagas a um cineasta alternativo (prefiro dizer bom cineasta) contra o pequeno prejuízo de um público reduzido, é um mal menos constrangedor do que as fortunas que os jogadores de futebol ganham à custa de quem empenha o salário de um mês inteiro para ver meia dúzia de jogos no campeonato do mundo?
Os políticos que defendem um modelo laboral onde as pessoas são meros títeres nas mãos da Economia (que teve um papel tão nobre no princípio da nossa História), são os mesmos que defendem o pobre povinho das arrogâncias herméticas do intelectuais. O Beckett devia ter escrito teatro de revista. Mas nada é assim tão simples.
Penso que os rivolitosos pretendem viver as suas vidas dando preferência a outros aspectos da experiência humana que não apenas a Economia. Serão perdedores, um pouco ridículos, bastante desequilibrados até, mas estão no seu direito. E o direito que tutelam parece-me o mais belo de todos: o de amar o Homem em todo o seu potencial, e na aspiração da sua crescente liberdade. Se as Ideologias se fizeram para o Homem, e não o contrário (o comunismo, nunca mais!!!), também a Economia se fez para o Homem, e não o contrário. Vir falar de público, elites, prestígio, qualidade, rentabilidade... Isso que interessa? Até porque pode um gestor privado ser tão snob que aposte num elitismo pior do que qualquer subsidiodependência.
Que outros pensem o contrário - estejam à vontade. Eu acredito que a missão da Arte se confunde com o mais profundo e o mais amplo que pode ser concedido ao, e conquistado pelo, Homem. Por isso vejo filmes de Bresson e de Eisenstein, leio Miguel Torga e Paul Éluard, aprecio Brecht e Claudel. Quero apenas não caber em mim. Quero sair do labirinto do dinheiro, e a Criação é um dos poucos fios de Ariana que conheço. O Rivoli interessa-me pouco (até posso abandoná-lo em las férias permanentes). Mas o meu credo é este.
Por isso voto em branco.

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