quinta-feira, outubro 26, 2006

O INACTUAL 5

"Sunset Boulevard" - Billy Wilder (1950)

No famoso clássico de Wilder, prefiro ver não tanto a crítica à máquina cruel de Hollywood, mas a construção de uma parábola sobre a sétima arte feita através de um subtil desvio às regras do cinema de género. Neste sentido, este film noir aproxima-se de obras-primas como "Peeping Tom" de Michael Powell (filme de terror) e "Rear window" de Alfred Hitchcock (filme de suspense).
O autor atribui, à personagem do argumentista (ou seja, àquele que aparentemente providencia o conteúdo do filme), toda a componente vital da obra: William Holden representa um homem novo, vivido, libidinoso, imerso na sua época, realista. Em compensação a personagem do realizador (interpretada por um dos mais geniais cineastas do tempo do mudo, Erich von Stroheim) toma a função do embalsamador (Bazin deve tê-lo dito na altura), daquele que vem justificar o conteúdo numa forma que se pauta pelas regras da morte (congelamento do corpo numa inconsistência espectral, eternização das acções, etc.). Não esqueçamos que Unamuno disse que as palavras são realidades, e as visões são ilusões (precisamente o contrário daquilo que de imediato suporíamos).
O argumentista tem portanto de morrer às mãos da matéria principal do filme (a Actriz), pois é ela quem faz a mediação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Assim, a personagem de Holden morre numa piscina rectangular, iluminada, à noite, que me parece uma evidente metáfora do ecrã. E ao morrer, transforma-se em voz-off, assim denunciando o carácter ambíguo de um recurso que, mais do que estilístico, é metafísico (o que é uma voz, quando separada do corpo?).
Quando no fim, a actriz (inesquecível Gloria Swanson) se aproxima da câmara pronta para filmar o seu close-up, a imagem fica desfocada porque se atingiu a essência perigosa do cinema - a perda do sentido (resta saber se da realidade, ou da fantasia).
Em conclusão, o amor não pode vingar (o velho realizador vive humilhado, a velha actriz ama um gigolo, o argumentista não é honesto com a namorada), porque o que se passa no cinema é demasiado grande e delicado para aguentar a coabitação com um funcionamento industrial.

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