sábado, outubro 07, 2006

O INACTUAL 4

"Vampyr" - Carl Dreyer (1932)

Neste filme hipnótico, demasiado universal para conceder protagonismo ao par amoroso na resolução da sua narrativa, o principal tema é, como sempre em Dreyer, a Palavra. O realizador obriga o seu espectador a passar parte do tempo da projecção a LER um livro (tentativa de filmar o verbo que só será maduramente atingida por Straub/Huillet, Duras, ou Manoel de Oliveira). Toda a salvação narrada depende, aliás, dessa leitura. E neste caso (ao contrário de "La passion de Jeanne d'Arc" ou "Gertrud"), o convívio com a palavra tem mesmo um saldo positivo (como em "Ordet", o verbo permite o triunfo sobre a morte).
A liberdade da sombra perante o corpo que a produz, que deu origem a pelo menos uma das cenas mais belas da História do cinema (o baile de sombras), é por Dreyer associada ao pacto com o diabo. Ora, o autor pretende uma igual libertação do espírito perante o seu cárcere carnal, mas pela via do Bem (a favor de Deus, com Deus). Assim, quando o protagonista se separa de si mesmo, o seu espírito não toma a forma de sombra, mas de TRANSPARÊNCIA. O cineasta não se subjuga a todas as possibilidades técnicas do cinema, mas escolhe aquelas que correspondem à sua vontade de discurso.
A partir do afecto da transparência, o dinamarquês premeia-nos com a câmara subjectiva feita a partir do olhar de um cadáver. O que se torna inquietante nesse momento antológico é que tal câmara subjectiva é radicalmente objectiva: nenhuma emoção, nenhum pensamento, nenhuma psicologia vem deformar aquilo que é dado a ver. Será que a vida após a morte é a total objectividade, a visão pura (a serenidade da transparência)? Ou mostrará Dreyer a sua dúvida ao tornar patente o vazio dessa visão?
Se do pó vieste e ao pó voltarás, talvez essa condição esteja apenas reservada aos ajudantes de vampiro: o vicioso médico morre sufocado sob o pó do moinho. Para os outros, existe a fé na Palavra. E a Palavra é a revolução do mundo.
Acredito na crença de Carl Dreyer.

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