terça-feira, outubro 17, 2006

O ACTUAL 4

“Transe” – Teresa Villaverde


Confesso que a sensibilidade desta autora é bastante diferente da minha. Há nela uma espécie de peso masoquista que a leva a eleger, no universo religioso, o episódio da Paixão como o seu mito pessoal. Eu sou adepto da Ressurreição (esta vida são três dias…). Além disso, nos grandes assuntos morais, prefiro ficar mais perto de Abbas Kiarostami do que de Lars von Trier. Mas precisamente porque não admito que tentem desviar a minha própria sensibilidade, penso que tenho o dever de não interferir na dos outros, e de os tentar compreender exactamente como eles são.

“Transe” levanta questões deveras importantes: desde uma visão corajosa da Europa, muito diversa daquela que nos é sugerida nos discursos edificantes dos homens políticos (este é o outro lado do sonho europeu), até ao entendimento do mundo moderno como sendo um continente onde se perderam as fronteiras sobretudo morais, passando pela destruição do mito aventuroso da viagem, pelo questionamento do Ocidente como destino de sonho (a viagem faz-se da Rússia até Portugal), e pela afirmação de que a violência que costumamos associar à guerra se mantém no contexto de paz, ainda que sob outras formas (menos visíveis, mas igualmente ferozes).

A direcção de actores é fantástica, e a autora está no cume das suas capacidades para filmar (os planos com Natureza trazem essa evidência, mas eu sublinharia a ousadia dos enquadramentos em torno do rosto e do corpo de Ana Moreira, sempre a explorarem soluções de desequilíbrio e a aceitarem o vazio como produtor de sentido). A escolha de um director de fotografia associado ao documentário não será alheia à crueza com que o filme nos assalta.

Há um plano em que vemos as luzes criadas por uma bola de discoteca a viajarem pela parede da sala de um bordel, Ana Moreira sai de campo, e regressa algum tempo depois com o bâton dos lábios esborratado sobre o rosto. Mas o fascínio das luzinhas mantém-se. Não só fica claro que a Beleza é fria e não se corrompe com o Sofrimento (o plano em que, no princípio da obra, o gelo se fractura, indicia mesmo uma intensificação do sublime), mas acima de tudo a autora parece querer dizer que se existe Sofrimento, é tão-somente porque temos noções, expectativas, afectos de Beleza. Temos a ilusão dos sonhos acordados, e quando o real se torna pesadelo, já nem o sono nos pode fazer felizes. Por isso, a gravidade do tema não descamba nem no estetizante (que é sempre imoral), nem na vontade de fazer sujo. Teresa Villaverde desfaz a aporia com a sageza da sua intuição.

E há todo um conjunto de deliciosas subtilezas. Por exemplo, se Sónia, a partir de dada altura, consegue falar italiano, português, etc.,, isso não só revela a espécie de Babel imoral em que ela caiu, mas acima de tudo sugere que a personagem sofreu tanto que foi tocada pelo Espírito Santo, e por isso consegue fazer-se entender em qualquer língua que pretenda.
Outro exemplo: toda a sequência da prisão no palacete, para servir de odalisca privada a um deficiente, pareceu-me uma perversão gritante do espírito das “1001 noites”. É o maravilhoso que existe no Terror.

Teresa Villaverde quis levar o seu gesto até ao limite (a sequência com o cão), e isso é sempre polémico, gerador de discussão. Só podemos admirar a coragem de quem arrisca para lá da vontade de qualquer consenso.

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