sábado, outubro 28, 2006

No plateau 3

O projecto de Jean-Look Spiell Bergman requeria a colaboração de um compositor. Falaram-lhe de Johann-Joachim van B. B. B., que era um estudioso de J. S. Bach, preocupado com a permanente actualização e renovação da pulsão polifónica.
A ideia era fazer uma Arte da Fuga com os meios do cinema. Ideia nebulosa, claro está, e que por essa altura se resumia ao desejo de, na realização de cada filme, se acharem equivalências plásticas para o progresso polifónico de cada fuga a ser encenada. Ou seja: Se numa fuga a duas vozes, o soprano efectuasse uma escala ascendente, enquanto o contralto se alongava numa nota única, a imagem poderia, por exemplo, mostrar um muro recto, paralelo à zona inferior do enquadramento, coabitando com uma linha arquitectónica ascendente que, apesar de não estar situada à mesma distância do dito muro, perderia lonjura devido à diminuição da profundidade de campo causada por uma tele-objectiva. E se a melodia do soprano fosse articulada em stacatto, também poderia a linha arquitectónica (na imagem) sofrer descontinuidades na sua evolução. Tudo dependente da imaginação que acontece no plateau.
A montagem manter-se-ia como a operação-chave desses filmes, na medida em que criaria linhas de compasso distintas daquelas sugeridas pela pauta do compositor. Aliás, para não se confundir com a edição mais formal que narrativa preconizada pelos soviéticos do mudo, a montagem tentaria comportar-se como mera barra de compasso, tentaria ser invisível, mais conciliadora do que expressiva, destinada a uma harmonia capaz de diluir a agressividade de cada corte. Esforço, de resto, inglório, pois nenhuma continuidade pode surgir quando se encadeia um muro/igreja com uma ponte de dois tabuleiros, e esta com a linha cuidadosamente podada de um canteiro de flores.
No fundo, Jean-Look Spiell Bergman queria filmar cidades. E queria fazê-lo com uma sistematicidade que não se pudesse distinguir de uma espécie de Grande Logro das Esferas.

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