segunda-feira, outubro 30, 2006

No escrínio 8

Poema de René Char, traduzido por Margarida Vale do Gato

CONDUTA

Passa.
A enxada sideral
Aí de novo se abismou,
Esta noite uma aldeia de pássaros
altiva exulta e passa.

Escuta com as têmporas rochosas
das presenças dispersas
a palavra que fará o teu sono
quente como uma árvore de Setembro.

Vê que se move o cruzamento
das certezas que chegaram
junto de nós à sua quintessência,
ó minha Forquilha, minha Sede ansiosa!

O rigor de viver corrói-se
incessantemente a convocar o exílio.
Através de uma chuva fina de amêndoa
misturada de dócil liberdade,
manifestou-se a tua alquimia guardiã,
ó bem-Amada!


Apesar da sua obscuridade, o texto fornece (de soslaio) um conjunto de circunstâncias que nos permitem situar a sua acção de uma maneira razoavelmente concreta. O poeta está a falar numa noite de Setembro, provavelmente exilado numa aldeia (na altura, Char era líder da resistência francesa, vivendo refugiado na aldeia provençal de Céreste, um lugar rochoso habitado por amendoeiras). Este exílio não se refere apenas à deslocação espacial, mas essencialmente à situação de desterro humano causada pelo nazismo e pela II Guerra Mundial. Talvez esteja a chover.
No entanto, esses dados vão ser transformados (libertados) pela alquimia própria do fazer poético. Assim, a agricultura (actividade por excelência do mundo rural) deixa de se fazer na terra e torna-se sideral. A aldeia passa a ser constituída por pássaros, cujo trabalho é nada mais que exultar (este poema é exultante, exaltante). O fruto da amendoeira torna-se matéria de chuva. E Setembro assume-se como símbolo de um calor estival moribundo, mas que ainda permanece devido ao poder da palavra.
A dor espiritual provocada pela guerra (que estraga o rigor de viver) vai ser então mitigada pelo amor FÍSICO que o poeta vai receber da amada. Por isso, a palavra conduta tanto se refere a uma moral do amor corroída pelo contexto bélico (as primeiras três estâncias começam com imperativos semelhantes aos de uma ética qualquer), como à condução física provocada pelos materiais (neste caso, o corpo da amada). Assim, o autor começa por falar de pássaros (seres vivos, sólidos quentes), que logo se transformam em presenças dispersas (onde o espectral se acumula), por sua vez estas tornam-se certezas (um conceito intelectual), e tudo isto depois cai em chuva de amêndoa (a amêndoa pode evocar a cor da amada, o sabor da sua pele, mas acima de tudo refere-se a um fruto seco, concreto, o oposto do inefável). Esta flutuação entre conceitos físicos e conceitos espirituais é, portanto, causada pela duplicidade de sentidos da palavra conduta. Para o poeta de formação surrealista, a conduta moral mais perfeita é a que deriva da prática do sexo (da condução dos prazeres através dos corpos).
Esta alquimia bem terrena exige, então, uma queda. A acção do pensamento sobre os pássaros que no início exultam tem como efeito a sua queda sob a forma de chuva alimentar. Afinal, se a Forquilha é um símbolo mágico, é essencialmente porque é com ela que desbravamos a terra que nos permite sobreviver. E se a Guerra é uma luta corpo a corpo, também é com o corpo que o Amor tem de responder.

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