terça-feira, outubro 17, 2006

No escrínio 7

Tradução do soneto de Shakespeare (do post anterior) por Vasco Graça Moura:

Nunca vi precisasses de pintura
e assim não te pus tintas na beleza,
achei-te (ou cri que achava) mais altura
para o que dá poeta em singeleza.
E dormi sobre o que és, para que bem
se visse, porque existes, como desce
um aparo moderno e fica aquém,
falando de valor, do que em ti cresce.
Tomaste esse silêncio por meu crime,
mas terei, mudo, glória mais subida,
nem a beleza o ser calado oprime,
que outros são tumba achando que dão vida.
Um só dos olhos teus mais vida anima
que teus dois vates em louvor e rima.


Shakespeare foi um poeta invulgarmente lúcido, e até por vezes demasiado cansado para se deixar levar pela poesia. No soneto proposto, o próprio poeta assume que escreveu o seu texto apenas para dizer que o seu texto não deveria ter sido escrito. Claro que há aqui não só uma dimensão de modéstia (que não é postiça pois combina com a lucidez), mas também uma hipérbole indirecta: o ser amado é inefável. Mas o aspecto mais moderno do texto é a sua auto-negação. Não ecoará esta atitude na metafísica do não-pensamento que Alberto Caeiro finge defender, ou ainda mais justamente numa obra como a do poeta holandês contemporâneo Gerrit Komrij?

O poema parece defender a sua total irrelevância. E com tanto vigor que, no último verso, certifica mesmo que esse parco valor não aumenta em consequência de uma prática poética baseada na humildade. Mas Shakespeare apenas admite que se manteve silencioso (que não usou tintas), não diz que não fez poesia. Mais: o poeta afirma que dormiu sobre a descrição da amada (slept in your report). Não escrever o poema equivale, assim, a sonhá-lo, ou melhor dizendo: a dormi-lo. Se os poetas que efectivamente accionam a escrita (os ingénuos) acabam por descambar na esterilidade (os seus textos são tumbas), aqueles que se deixam ser accionados pela escrita, encontram a glória poética.

O quinto verso permite, portanto, concluir que esta insatisfação com a poesia não é mera retórica, mas uma preocupação que se abre ao futuro. E se passados alguns séculos, ainda Mallarmé se debatia (exemplarmente) com o vazio inerente à criação artística, foi no espaço de poucos anos a seguir à morte deste que os surrealistas vieram desfazer esse dilema, ao proclamarem a fusão entre poesia, amor, e vitalidade. Com base em quê: no inconsciente. E mesmo que os Holocaustos do século XX tenham (temporariamente?) desfeito a ilusão fundada por Breton, o facto é que um poeta como Paul Celan (próximo do grande Pesadelo) certamente concordaria com este gesto lúcido de Shakespeare, que frontalmente desfaz um dos mais velhos clichés do Homem, ao dizer que o sono NÃO É a morte.

Diria agora eu, por minhas palavras, que todo o poema se escreve na região de pausa de um ser. E digo-o sem interesse nas ciências da psique, mas rendido à imprevisibilidade da criação.

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