sábado, outubro 07, 2006

No escrínio 6

Poema "ditirambo" de Mário Cesariny

Meu maresperantotòtémico
minha màlanimatógrafurriel
minha noivadiagem serpente
meu èliòtrópolipo polar

meu fiambre de sol de roseira
minha musa amiantulipálida
meu lustrefrenado céu grande
minha afiàurora-manhã

minha fôgoécia de estátuas
minha lábioquimia cerrada
minha ponta na terra meu arsgrima

meu diamantermita acordado!


O poema provavelmente derivará da admiração de Cesariny pela obra-prima "Allo" de Benjamin Péret, um cume da litania amorosa surrealista. Aliás, o poeta português pratica a mesma economia de tema (apenas celebrar o ser amado) e uma equivalente simplicidade técnica que, em vez de empobrecerem o texto, o abrem para um infinito de interpretações. Partilho aquilo que alguns versos concretos me sugerem.
minha noivadiagem serpente
Aparentemente, estamos perante um paradoxo (uma noiva está sempre submetida a uma estabilidade doméstica que em tudo se opõe à vadiagem). Mas será mesmo assim? O facto é que o poeta não opõe dois conceitos semelhantes ("noivàdia", por exemplo), mas uma personagem e um modo de acção. E assim se passa do absurdo para uma liberdade poética: uma noiva, para permanecer noiva, tem de submeter o seu amor à vadiagem (à flutuação) que esse sentimento exige.
Chamo também a atenção para a desnecessidade de trabalhar a palavra serpente. A técnica do poema contagia tudo, e permite-nos descortinar, no réptil, um modo de ser pente. O poeta é aquele que de tal modo inflama sentidos, que chega a retirar ecos de toda a matéria que decidiu não trabalhar.
meu fiambre de sol de roseira
Este verso tem algumas consequências evidentes: não só o ser amado é, conflituosamente, alimento e gordura, como este sol não nasce para todos, mas se dedica à situação privada da roseira (os amantes roubam o astro para si mesmos). Mas chamaria também a atenção para o facto deste verso me parecer derivar (conscientemente ou não) da expressão: uma fatia tão fina que se vê o sol por ela. Ora se juntarmos esta magreza translúcida à semelhança de cor entre o fiambre e a rosa (quando cor-de-si-mesma), podemos pensar que tudo isto poderia ser substituído por minha pétala.
minha afiàurora-manhã
Quando afiamos a aurora (quando lhe retiramos o que a impede de ser penetrante), esta torna-se manhã.
minha fôgoécia de estátuas
Entre os sentidos possíveis para a palavra inventada, podemos supor uma Grécia em fogo, declamada por quem não sabe dizer os erres (uma criança; alguém que fala de modo diferente, como o poeta). Assim não só temos a Razão submetida ao fogo da paixão, como se evoca o ser amado através das suas múltiplas, efémeras, expressões (estátuas belas, mas de fogo: cinza permanente).
meu diamantermita acordado!
Há aqui um diamante, sem vida mas precioso (como o dormidor), e uma térmita, trabalhadora, mas minúscula. O drama é, portanto, manter-se acordado durante o dia. Pois para os surrealistas, o que importa é o sonho.

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