terça-feira, outubro 31, 2006

Narratividade

Um quarto de hora: ainda tenho tempo suficiente para chegar ao emprego. Sou o próximo a ser atendido nos serviços financeiros dos Correios. Mas os outros clientes têm demasiado tempo: estão a contar as vidas deles aos funcionários (e já as têm bem compridas e cumpridas). Assim, apesar de eu ainda ter um bom número nas mãos, o tempo que me resta já não me vai permitir fazer uma poupança. Afinal, tempo é dinheiro. Saio dos Correios e não fui atendido.
O meu sapato descolou (é demasiado aristocrata para aguentar esperas mesquinhas). Pareço um tolo a caminhar pelas ruas (simbolismos). Mas o automóvel está perto, tudo se resolverá.
Sentado na minha máquina-do-espaço, verifico se tenho dinheiro suficiente para pagar o Parque (o custo normal é 1 euro pela primeira hora). Só tenho moedas: conto (narro). Moeda após moeda, descubro que tenho apenas... 99 cêntimos. Mas não desespero: há sempre a hipótese de comover o funcionário que controla os pagamentos, e de lhe ficar a dever uma (um). Mas um senhor simpático diz-me que, nesse dia, é preciso fazer o pagamento na máquina automática. Estou perdido: a máquina não se comove. Um cêntimo é um cêntimo e é um cêntimo.
Saio do carro. Estou definitivamente atrasado. De novo caminho com o meu sapato descolado. Lá vai o tolo à procura de uma máquina multibanco (terceira máquina da narrativa). Não há nenhuma por perto. E a primeira que encontro, não me pode atender por dificuldades de comunicação (presumo que Deus esteja num acesso de misantropia).
Regresso ao automóvel (sempre o sapato de palhaço a cativar os olhares dos transeuntes). Dirijo-me à maquina de pagamentos, meto o cartão, e o valor que tenho de pagar é... 90 cêntimos.
Isto aconteceu de verdade: não é narratividade.
O que eu precisava então era de uma máquina-do-tempo que me fizesse chegar a horas ao local de trabalho. Mas as máquinas mais úteis ainda não foram inventadas.
Gastei 90 euros num par de sapatos novos. Era o dinheiro da poupança.

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