segunda-feira, outubro 09, 2006

Militância

Oponho-me convictamente a que as técnicas da narrativa sejam objecto de ensino e respectiva aprendizagem.
O que se ensina na pintura é a mistura dos pigmentos, o tratamento dos materiais, a eficácia dos gestos. De resto, os achados que serviram determinada geração quase sempre se tornam truques que a geração seguinte pretende ultrapassar. Ou seja, não se ensina a pintar.
O que se ensina no cinema é o efeito da escolha das lentes, o uso das fontes de luz, a tecnologia da montagem. Se Orson Welles renovou o modo de filmar em "Citizen Kane", isso deveu-se em parte ao facto do estreante não conhecer o que era considerado possível até então, e por isso ter pedido quimeras ao seu director de fotografia. Gregg Toland, técnico magistral, conseguiu materializar as visões do ingénuo. E assim a imagem-tempo (de Deleuze) atingiu uma primeira maturidade. Ou seja, não se ensina a filmar.
O que se ensina na literatura é a gramática.
De resto, o que temos é de ler ou ouvir aquelas meia-dúzia de ideias que são de facto justas, e esperar que a nossa vida (física e intelectual) nos permita, mais tarde ou mais cedo, entendê-las.

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