quinta-feira, outubro 05, 2006

Kafka, burocrata de personagens

A uma dada altura, diz-se em "O Castelo" que as decisões oficiais são esquivas como as raparigas. Para além da afirmação da ausência de fronteiras entre vida íntima e civil (ideia já lançada noutro post), a frase coloca em perspectiva as várias personagens femininas do romance.
Na verdade, quase todas as mulheres ali descritas se sujeitam a cumprir os caprichos sexuais dos senhores do Castelo. A estalajadeira sobrevive no presente apenas porque foi amante de Klamm no passado (foi o ponto alto da sua existência). Frieda é submissa a qualquer homem, e a qualquer organização jurídica e burocrática. Olga deseja, ardentemente, a possibilidade de se submeter. No fundo, são o oposto da mulher esquiva, na medida em que aceitam as regras oficiosas daquele mundo.
Pelo contrário, Amalia tomou de facto uma decisão: negou-se a cumprir uma ordem sexual. Esquivou-se. O curioso é que a maldição que vai recair sobre si e sobre a sua família nunca é assumida publicamente. Não há provas de nada, nenhum indício, nenhuma certificação. E daí a dificuldade da resolução. No fundo, o funcionamento civil daquele lugar é tão medíocre que responde a uma decisão oficial com uma consequência oficiosa. Isto não é estranho para nenhum de nós, aqui, e agora.
Aliás, sobre o corpo de Klamm não há certezas. A sua descrição é fundada em boatos contraditórios. A sua aparência é tão desejada e inatingível que não pode ser estável.
Kafka é um burocrata das suas personagens: o Tempo e a psicologia do observador complicam de tal modo o ser observado, que este se torna irrepresentável.
Isto apenas confirma o Casting 4.

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