terça-feira, outubro 17, 2006

Ingenuidade

Ninguém é mais dependente do que eu deste português que se fala em Portugal. Quando passei um período de mais de dois meses em Inglaterra, senti-me em verdadeiro estado de ressaca intelectual, como se já não soubesse pensar, interrogar, escrever, ou até mesmo desejar.

Vi recentemente, na televisão, a cantora Eugénia Melo e Castro defender que, apesar de viver e trabalhar no Brasil (por razões de afinidade com a Canção desse país), continua a exprimir-se musicalmente com o sotaque de Portugal. Acredito, e até agradeço a militância. Mas o que me saltou aos ouvidos foi o incrível esforço que essa mulher fazia para falar fiel ao seu propósito. Ele era uma vogal que se queria abrir, uma expressão bem mais ipiranga que pessoana, um desarranjo da sintaxe a pedir calor e aguinha de coco… Era uma luta titânica.
Ou talvez entre Davi e Golias, quando o português quer deixar de resistir e entregar-se de alma e canção à virilidade de um sotaque fatal.

Para defender a nossa causa, é preciso ter a lucidez de a saber perdida à partida.

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