terça-feira, outubro 17, 2006

Imagens

O filme “Little Miss Sunhsine” é extremamente simpático. Não tanto um feel good movie, mas uma pedrada no charco do sucesso e do conformismo. Filme rente ao humano, ao sabor de um veículo que só funciona a descer (é um grupo de falhados) ou que precisa de solidariedade para arrancar (é uma família). Ainda por cima, com alguma provocação directa às Vestais deste mundo.

No entanto, para além do argumento não me parecer suficientemente bem explorado, algumas declarações dos realizadores deixaram-me francamente insatisfeito. Jonathan Dayton e Valerie Faries pretenderam que, no seu filme, se notasse mais a cooperação com um argumentista do que a marca do seu passado como fazedores de videoclips. Compreendo que se referiam essencialmente à estética suja que “Little Miss Sunshine” tenta reproduzir. No entanto, dada a pobreza das imagens efectivamente conseguidas, fico com a sensação de que ainda existe, no cinema, uma distinção artificial entre imagens belas e feias (ou seja, entre o decorativismo e a ausência de expressividade). Ora, esse é um falso problema (um modo errado de entender os conceitos de forma e conteúdo).

“Little Miss Sunshine” é, acima de tudo, um filme palrado. Mas o cinema não é teatro, não é narrativa. O cinema é a montagem de imagens e sons. Uma imagem pode ser assombrosamente fascinante (Tarkovski), ou a mera espuma de um café (Godard). Pode incidir na afectividade da fotogenia (Bergman) ou na perversão fria do que é encenado (Buñuel). Pode exigir a palavra (Oliveira) ou prescindir dela (Murnau). Mas é a sua contundência que decide o assunto de um filme. Filmar é inventar imagens.

Ou seja, é justo que se queira abandonar a futilidade da estética MTV. Mas se isso implica a ausência de criatividade especificamente visual, então não estamos perante cineastas.

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