terça-feira, outubro 17, 2006

Gralhas

Quando escrevia para uma revista de cinema, as gralhas que sempre surgiam nas primeiras provas de cada edição, mais do que me fazerem sorrir, pareciam-me carregadas de sentido.
Relembro os dois acidentes mais espirituosos.

Num artigo sobre Cassavetes, tive eu o desplante de, em vez de escrever os géneros (ou os dois sexos, ou pura e simplesmente os homens e as mulheres), optar pela insípida expressão os tipos sexuais. Não sei se foi obra e graça de quem tipografou o meu manuscrito (nas editoras haverá gente com sarcasmo), ou mera ironia de um destino de pouca tiragem, o facto é que, aquando da correcção das primeiras provas, no lugar daquele meu literário transporte, eu li: os tiros sexuais. Elas cá se fazem, elas cá se pagam: puseram-me no meu lugar. Pois nisto de sexo, é preciso saber sempre o que mais interessa.

Diferente foi o caso de um outro redactor que havia elogiado, com circunstância e alguma pompa, um cineasta que não fazia o agrado da maior parte dos outros colaboradores. E dizia coisas do género jornalista, como por exemplo: ao longo da sua grande carreira como criador. Chegam as ditas provas, e a vingança trouxe uma geral satisfação. A frase apenas perdera uma letra, mas ganhara dignidade: ao longo da sua grande carreira como criado

Igualmente aqui, no meu arremedo de blogue, já publiquei um pequeno erro, que entretanto corrigi. Não é tão engraçado, mas também fala alto. Na “Crónica do espanta-espíritos”, queria eu escrever o seguinte: Terá John Cage composto para espanta-espíritos? No entanto, um esse distraído alojou-se na frase, e a coisa ficou assim: Terá John Cage compostos para espanta-espíritos? A verdade é que eu quase disse a mesma coisa. Pois não pode a música ser apenas mais um composto a acrescentar aos búzios que fazem o objecto? Desde quando a invenção ocupa uma importância de tamanho maior do que a simples matéria a que se refere?

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