sábado, outubro 07, 2006

Exílios

Quando comecei a realmente escrever poesia, muitas vezes recorria a virtuosismos de rima rígida ou de manutenção de medidas métricas. Sinceramente, penso que foi melhor assim: pois quando ainda não escrevia poesia realmente, os meus excessos de liberdade não eram mais que patologias de adolescente.
No entanto, comecei a notar que a minha evolução me levava para outras paragens, e a verdade é que acabei por desenvolver um ritmo peculiar (oral, quase pontuado, intuitivo) , e uma liberdade de rima mais próxima da improvisação musical que da matemática. Por isso, escrevi num poema que o artista é um perdedor de ciências. Aliás, na medida em que, recentemente, comecei a escrever a poesia em prosa, tenho até receio de que qualquer dia perca a própria ciência do verso. Nada faço, contudo, para travar tais mutações. Quero ficar com a poesia, não com aquilo que lhe é lateral.
Tenho também tentado escrever em inglês. Os poemas lá vão saindo, é claro, mas sinto-me de facto como aquele famoso peixe que vive nas nossas bocas, mas fora da sua água. Talvez o criador seja apenas perdedor de ciências (todas aquelas que trouxemos da infância), e não tenha direito a ganho nenhum. Não citaria o Pessoa com exactidão, mas diria: o meu exílio é a língua portuguesa. Nisto de poesia, convém ter apenas os direitos que o céu permite.

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